| Janeiro
01 – Dia Mundial da Paz 11 – Dia de Controle de Poluição por Agrotóxicos |
Fevereiro
02 – Dia Mundial das Zonas Úmidas 22 – Dia da Criação do IBAMA |
Março
01 – Dia do Turismo Ecológico 14 – Dia Mundial da Luta dos Atingidos por Barragens 20 – Início de Outono 21 – Dia Florestal Mundial 22 – Dia Mundial da Água |
| Abril
07 – Dia Mundial da Saúde 15 – Dia Nacional da Conservação do Solo 19 – Dia do Índio 22 – Dia do Planeta Terra |
Maio
03 – Dia do Pau Brasil / Dia do Solo 18 – Dia das Raças Indígenas da América 25 – Dia do Trabalhador Rural 27 – Dia Nacional da Mata Atlântica |
Junho
04à 09 – Semana Nacional do Meio Ambiente 05 – Dia Mundial do Meio Ambiente / Dia da Ecologia 21 – Início de Inverno 23 – Dia do Lavrador 29 – Dia do Pescador |
| Julho
17 – Dia de Proteção às Florestas 25 – Dia do Colono 28 – Dia do Agricultor |
Agosto
05 – Dia Nacional da Saúde 06 – Dia de Hiroshima 09 – Dia Internacional do Povos Indígenas / Dia Interamericano de Qualidade do Ar 14 – Dia do Combate á Poluição |
Setembro
05 – Dia da Amazônia 09 – Dia do Veterinário 16 – Dia Internacional para a Prevenção de Desastres Naturais 21 – Dia do Fazendeiro / Dia da Árvore 21 à 26 – Semana da Árvore no Sul do Brasil 22 – Dia do Rio Tietê/ Dia da Defesa da Fauna 23 – Início da Primavera |
| Outubro
04 à 10 – Semana da Proteção à Fauna 04 – Dia Mundial dos Animais / Dia de São Francisco de Assis/Dia da Natureza / Dia do Cão 05 – Dia da Ave 12 – Dia do Mar 15 – Dia do Educador Ambiental |
Novembro
24 – Dia do Rio 30 – Dia do Estatuto da Terra |
Dezembro
15 - Dia do Jardineiro 21 – Início do Verão 29 – Dia Internacional da Biodivercidade 31 – Dia da Esperança |
Aprofundamento da Calha do Tietê – Primeira etapa
Financiamento Japan Bank International Coorperation (JBIC)
DAEE completou em dezembro de 2000 o aprofundamento de 16 mil metros da calha do Rio Tietê no trecho entre o Cebolão e o início do lago da barragem Edgard de Souza. A obra faz parte do pacote de obras contra enchentes na Região Metropolitana, financiado pelo governo japonês através do Japan Bank International Coorporation (JBIC).
Aprofundamento médio – 2,5 metros
Extensão – 16 quilômetros.
Municípios – São Paulo, Osasco, Barueri, Carapicuiba e Santana de Parnaiba.
Vazões
- Altura do Cebolão (abaixo da barragem móvel) – de 640 para 1048 m3/s
- Altura de Edgard de Souza – de 710 para 1434 m3/s
Volume escavado – 4 milhões de m3 (inclui rochas e assoreamento)
Início da obra – junho de 1998
Término da obra – dezembro de 2000
Aprofundamento da Calha do Tietê – Segunda etapa
Investimento – R$ 688,3 milhões
- JBIC ( Japan Bank International Coorporation) – R$ 498 milhões (dez/2001)
- Governo do Estado de São Paulo – R$ 190,3 milhões (dez/2001)
Início das obras – 10 de abril de 2002
Prazo de obras – 30 meses
Principais quantitativos das obras
Extensão – 24,5 quilômetros (Cebolão / Barragem da Penha)
Aprofundamento médio – 2,5 metros
Volume de escavação
- Solo – 6 milhões de metros cúbicos
- Rochas – 800 mil metros cúbicos
Muros de contenção – 19 mil metros
Gabiões – 1 milhão de metros quadrados
Concreto – 100 mil metros cúbicos
Tirantes – 20 mil metros
Equipamentos mecânicos (comportas) – 220 toneladas
Pontes – Reforço de Fundação
- Piqueri
- Cruzeiro do Sul (2 tabuleiros)
Desemboques e afluentes – 62
Galerias e Bueiros – 300
Descarregador de Fundo – 1
Eclusa de Navegação – 1
Sifão de Esgotos em Túnel – 1
Vazões do Tietê
- Altura da foz do Aricanduva – de 210 para 561 m3/s
- Altura da foz do Tamanduateí – 270 para 640 m3/s
- Altura do Cebolão – de 640 para 1048 m3/s
4 Frentes de Trabalho
Lote 1
- Extensão: 6.060 metros (foz do Pinheiros até 600 metros acima da Ponte do Piqueri);
- Consórcio CBPO / Queiroz Galvão / Construcap (CBPO Engenharia Ltda., Construtora Queiroz Galvão e Construcap CCPS Engenharia e Comércio SA).
Características do Projeto – Trecho compreendido entre o “Cebolão” e a Ponte do Piqueri (próximo), com extensão de 6.060,00 m. Abrange também a construção de uma eclusa e um descarregador de fundo junto à barragem móvel, obras estas concluídas no início de 2004.
Com a operação da eclusa estarão interligados, para efeito de navegação, os trechos das fases I e II das obras de ampliação da calha, numa extensão superior a 40 Km, dentro da RMSP.
- Seção Transversal: Mista com 2 trapézios separados por uma berma de transição de 3,0 m de largura. Trapézio inferior com 46 m de base e taludes de 1V:1,3H, protegidos por enrocamento (rip rap) ou em terreno natural (quando tratar-se de rocha ou material resistente). Trapézio superior com 65 m de base (incluídas as 2 bermas laterais) e taludes 1V: 1,7H, protegidos em gabião manta revestido com concreto projetado.
- Declividade longitudinal: 15 cm/Km
- Vazão máxima de dimensionamento: 1048 m³/s.
Lote 2
- 6.400 metros (600 metros acima da Ponte do Piqueri até a foz do rio Tamanduateí);
- Consórcio OAS / Carioca / Mendes Júnior (Construtora OAS Ltda., Carioca Christiani – Nielsen Engenharia SA e Mendes Júnior Trading e Engenharia SA)
Características do Projeto – Trecho compreendido entre a Ponte do Piqueri até a Foz do Tamanduateí, com extensão de 6.400m:
- Seção Transversal: trapezoidal, com largura da base de 46 m e taludes marginais com inclinação de 1V:2H; mista com 2 trapézios separados por uma berma de transição de 3,0 m de largura. Trapézio inferior com 46 m de base e taludes de 1V:1,3H, protegidos por enrocamento (rip rap) ou em terreno natural (quando tratar-se de rocha ou material resistente). Trapézio superior com 65 m de base (incluídas as 2 bermas laterais) e taludes 1V: 1,7H, protegidos em gabião manta revestido com concreto projetado.
- Declividade longitudinal: 15 cm/Km
- Vazão máxima de dimensionamento: 997 m³/s.
Lote 3
- 5.660 metros (foz do Tamanduateí até 350 metros abaixo da Ponte do Tatuapé);
-Consórcio Andrade Gutierrez / Mape (Construtora Andrade Gutierrez SA e Mapa SA Construções e Comércio)
Características do Projeto – Trecho compreendido entre a Foz do Tamanduateí e proximidades do acesso à Via Dutra e Fernão Dias, com extensão de 5.660,00 m:
- Seção Transversal: Mista com 2 trapézios separados por uma berma de transição de 3,0 m de largura. Trapézio inferior com 41 m de base e taludes de 1V:1,3H, protegidos por enrocamento (rip rap) ou em terreno natural (quando tratar-se de rocha ou material resistente). Trapézio superior com 60 m de base (incluídas as 2 bermas laterais) e taludes 1V: 1,7H, protegidos em gabião manta revestido com concreto projetado.
- Declividade longitudinal: 15cm/Km
- Vazão máxima de dimensionamento: 640 m³/s.
Lote 4
- 6.450 metros (350 metros abaixo da Ponte do Tatuapé até a Barragem da Penha)
- Consórcio Camargo Corrêa / Enterpa / Serveng (Construções e Comércio Camargo Corrêa SA, Enterpa Engenharia Ltda., e Serveng – Covilsan SA Empresas Associadas de Engenharia).
Características do Projeto – Trecho compreendido entre proximidades do acesso à Via Dutra e Fernão Dias e o eixo da Barragem da Penha, com extensão de 6.450,48 m:
- Seção Transversal: Mista com 2 trapézios separados por uma berma de transição de 3,0 m de largura. Trapézio inferior com 41 m de base e taludes de 1V:1,3H, protegidos por enrocamento (rip rap) ou em terreno natural (quando tratar-se de rocha ou material resistente). Trapézio superior com 60 m de base (incluídas as 2 bermas laterais) e taludes 1V: 1,7H, protegidos em gabião manta revestido com concreto projetado.
- Declividade longitudinal: 15 cm/Km
- Vazão máxima de dimensionamento: 561 m³/s
Projeto Tietê
O Projeto Tietê foi criado pelo Governo do Estado de São Paulo em 1992. Ele foi dividido em 3 etapas, das quais a primeira já foi concluída. À Sabesp coube um papel primordial: acabar com a poluição gerada pelos esgotos da Região Metropolitana de São Paulo. Os resultados já beneficiam a população atendida pela empresa: os índices de coleta de esgoto passaram de 63%, em 1992, para 80%, em 1998, e os índices de tratamento passaram de 20% para 60%. A mancha de poluição das águas do Rio Tietê no interior do Estado recuou mais de 50 km. Com o Emissário Pinheiros, concluído no início de 2000, 84 toneladas de esgotos deixaram de ser lançadas no Rio Pinheiros diariamente, sendo encaminhados para a Estação de Tratamento de Barueri.
Agora, na segunda etapa, as obras a cargo da Sabesp trazem mais benefícios permanentes à população da Região Metropolitana. Os objetivos são: aumentar a quantidade dos esgotos tratados, encaminhando o maior volume possível de esgotos às Estações de Tratamento estender o serviço de coleta de esgotos a mais 400 mil famílias, aumentando o índice de atendimento na RMSP para 90%; e controlar a emissão dos efluentes de mais 290 indústrias.
Benefícios do Projeto
Os ganhos são muitos: benefício direto a cerca de 1,2 milhão de pessoas com a coleta de esgotos, geração de 75 mil novos empregos, durante a execução do Projeto, e criação de empregos permanentes. Haverá o monitoramento da qualidade das águas do rio Tietê e seus afluentes e melhora das condições sanitárias para 17,5 milhões de habitantes da RMSP, além dos municípios do Interior do Estado banhados pelo Tietê. Em saúde pública, haverá redução de custos em medicina corretiva, diminuição de doenças de veiculação hídrica e queda nos índices de mortalidade infantil.
De 1992 a 1998
O projeto Tietê contou com investimentos do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento. A Sabesp priorizou os investimentos com maior retorno social, através da construção de redes coletoras e ligações, que afastam os esgotos do contato com a população, melhorando assim a saúde dos habitantes da região metropolitana.
Dentre as obras executadas, destacam-se:
* Estação de Tratamento de Esgotos São Miguel, com capacidade de 1,5 m3/s, inaugurado em junho de 1998·
* Estação de Tratamento de Esgotos Parque Novo Mundo, com capacidade de 2,5 m3/s, inaugurado em junho de 1998·
* Estação de Tratamento de Esgotos ABC, com capacidade de 3,0 m3/s, inaugurado em junho de 1998·
* Ampliação da Estação de Tratamento de Esgotos Barueri, que teve a capacidade aumentada de 7,0 m3 /s para 9,5 m3/s e foi inaugurada em outubro de 1998·
*Redes de Coleta – 1.480 km·
* Ligações Domiciliares – 223.000 unidades·
*Coletores-tronco – 270 km·
* Interceptores – 31,3 km
Benefícios Alcançados com a Conclusão da Primeira Etapa·
* Elevação da Qualidade de Vida·
* Ganhos para a Saúde Pública·
* Melhoria do Meio Ambiente·
* Aumento da Disponibilidade de água Potável·
* Possibilidade de Implantação do Reuso da água.
Tratamento de Esgotos – Números do Sistema Principal
O Sistema Principal de Esgotos da RMSP é constituído por cinco Sistemas de Tratamento, e compõe-se ainda de 130 km de interceptores, sifões, travessias e emissários com diâmetros variando de 0,60 m a 4,50 m e trata atualmente 11.000l/s, beneficiando uma população de aproximadamente 6.500.000 habitantes.
* Vazão média de esgoto tratado = 11.000 l/s (ano de referência: 2000)
* População equivalente de atendimento = 6.500.000 habitantes
* Carga orgânica removida = 168.000 kg DBO/dia
* Carga de sólidos em suspensão removida = 133.000 kg SST/dia Remoção de carga orgânica = 90 a 95%
* Quantidade de lodo produzida = 229 t/dia
* Potência instalada = 63.000 kVA
* Consumo de energia elétrica = 1.765.729 kWh
Estação de Tratamento de Esgotos ABC
Tem capacidade instalada para tratamento de 3.000 litros de esgoto por segundo, atendendo 1.400.000 habitantes. saiba mais
Estação de Tratamento de Esgotos Barueri
Tem capacidade instalada para tratamento de 9.500 litros de esgoto por segundo, atendendo 4.460.000 habitantes. saiba mais
Estação de Tratamento de Esgotos Parque Novo Mundo
Tem capacidade instalada para tratamento de 2.500 litros de esgoto por segundo, atendendo 1.120.000 habitantes.saiba mais
Estação de Tratamento de Esgotos São Miguel Paulista
Tem capacidade instalada para tratamento de 1.500 litros de esgoto por segundo, atendendo 720.000 habitantes. saiba mais
Estação de Tratamento de Esgotos Suzano
Tem capacidade instalada para tratamento de 1.500 litros de esgoto por segundo, atendendo 720.000 habitantes. saiba mais
Disposições Finais
A disposição final dos resíduos gerados no processo de tratamento de esgotos é um problema que vem se arrastando há vários anos e que tende a crescer a medida em que são ampliadas as capacidades dos sistemas de coleta e tratamento de esgotos instalados.
A disposição final do lodo de esgoto pelas suas próprias características qualitativas e quantitativas, é uma dos principais problemas que envolvem uma estação de tratamento de esgotos. Entre as diversas opções para o equacionamento do problema, a mais comum envolve a digestão anaeróbia seguida de desidratação e destinação final em aterros sanitários.
Atualmente, os lodos produzidos são encaminhados aos aterros sanitários da Prefeitura Municipal de São Paulo para co-disposição com os resíduos sólidos urbanos. Este esquema de disposição é decorrente de um convênio em Outubro de 1994 entre as duas entidades, SABESP e PMSP. De acordo com o contrato, a prefeitura receberia o lodo gerado nas ETE´s em troca do tratamento do chorume – líquido percolado gerado nos aterros municipais.
De forma geral, os resíduos do processo de tratamento têm tido uma disposição final baseada no conceito de resíduo a ser descartado, e não como subprodutos de interesse comercial. O efluente final tratado é lançado nos rios, o biossólido é disposto em aterros, e no caso do gás; há queima sem aproveitamento energético.
Os subprodutos gerados em ETE´s podem ser divididos em três grandes categorias:
* Biossólidos – lodos de esgoto
* Biogás – gás de esgoto
* Água de Reuso – efluente final
A reciclagem destes subprodutos e sua posterior comercialização têm sido uma das principais preocupações da Unidade de Negócios de Tratamento de Esgotos, que tem avaliado as possíveis alternativas de engenharia para o tratamento de forma economicamente atraente e de menor impacto ambiental, para cada um destes subprodutos produzidos, reduzindo o custo de disposição além de propiciar ganhos ambientais e aumento de receita para a SABESP.
O Tratamento da Água
São sete grandes sistemas produtores de água potável na Região Metropolitana de São Paulo: Cantareira, Guarapiranga, Alto e Baixo Cotia, Alto Tietê, Rio Claro e Rio Grande.
O maior deles é o Cantareira, responsável por 33 mil litros de água por segundo. A água produzida nos sete sistemas chega aos consumidores através de 1200 quilômetros de grandes tubulações ou adutoras, reservatórios e 23 mil quilômetros de redes de distribuição.
O tratamento da água tem a finalidade de eliminar as impurezas prejudiciais e nocivas à saúde. Quanto mais poluído o manancial, mais complexo será o processo de tratamento e, portanto, mais cara será a água.
“Na estação de tratamento de água nós recebemos a água bruta. Ela recebe o primeiro produto químico, que é sulfato de alumínio líquido. A função do sulfato de alumínio é justamente agregar aquelas partículas, aquele material que está dissolvido na água, ou seja, a sujeira”.
Depois da adição do sulfato de alumínio, a água chega aos floculadores, onde recebe cloro – para a desinfecção – e polieletrólito, um produto químico que vai ajudar na floculação.
Aqui no floculador, os motores agitam a água em velocidade controlada para aumentar o tamanho dos flocos. Em seguida, a água passa para os decantadores, onde os flocos maiores e mais pesados vão se depositar.
Cinqüenta a sessenta por cento das impurezas ficam retidas no decantador. Somente a água da superfície sai dos decantadores e passa pelo processo de filtragem, para retirar o restante das impurezas. Nessa fase, recebe nova adição de cloro.
O filtro tem vida útil de 20 a 30 horas. Ao final desse período, deve ser lavado para a retirada da sujeira que ficou retida na filtragem. Depois de filtrada, a água recebe a adição de cal para elevar o PH, cloro e flúor. Só então ela está própria para o consumo. O padrão de potabilidade da água tratada e consumida pela população de São Paulo segue as recomendações da Organização Mundial de Saúde, garantindo a inexistência de bactérias e partículas nocivas à saúde humana. Dessa forma, evita-se o surgimento de grandes surtos de epidemias, como a cólera e o tifo. E a SABESP faz o monitoramento da qualidade das águas em seus laboratórios, durante todo o processo de produção e distribuição.
Perdas de Água
A água, depois de tratada, é levada à população através da rede de distribuição, um conjunto de tubulações e peças especiais que exigem operações adequadas e manutenção sistemática. Mas, podem ocorrer acidentes no percurso da água, provocando rompimentos nas tubulações e a conseqüente perda de água. As perdas de água potável são calculadas tendo como base a diferença entre o volume consumido registrado pelo conjunto de hidrômetros e o volume produzido pelos sistemas.
Existem dois tipos de perda: a física e a não física. A perda física é a água perdida em vazamentos, aquela que não chega ao consumidor.
A perda não física é a água usada pelos consumidores, mas que não é medida pela empresa de abastecimento de água, como as ligações clandestinas e outros tipos de fraudes. Dessa forma, obtém-se a perda total de 42 por cento do que é produzido na Região Metropolitana de São Paulo. No sistema público, o Programa de Redução de Perdas da SABESP visa, até 1998, reduzir a perda para 24 por cento. Ao mesmo tempo, a empresa desenvolve um programa de uso racional de água.
Conservação da Água
É claro que a conservação da água depende, sobretudo, de ações educativas junto à comunidade, que deve ser esclarecida com relação aos prejuízos que a poluição provoca. E depende, também, de uma série de leis e regulamentos que as autoridades devem implantar.
Poluição no Rio Tietê
A falta de planejamento em relação aos recursos hídricos precisa acabar. É necessário que haja administração racional, que não vise apenas aumentar a oferta de água com grandes investimentos em obras, mas se preocupe, principalmente, em conservar, preservar e reaproveitar a água que temos. A sua conservação exige, entre outras coisas, a coleta e o tratamento de esgotos, que atendem aos aspectos sanitários e legais. O controle da ocupação urbana e o tratamento dos esgotos são primordiais na proteção dos mananciais.
Os países desenvolvidos proíbem o despejo de esgoto industrial e doméstico sem tratamento nos rios e represas para garantir a reutilização segura dessas águas. A água de esgoto tratado não é potável , mas serve para usos menos nobres.
“O tratamento de esgotos é um processo fundamental para o controle da poluição das águas, recuperação da qualidade das águas servidas e diminuição da poluição ambiental.
Despejos industriais e domésticos, quando lançados em córregos ou rios, comprometem seriamente a qualidade das águas, propiciando a incidência de doenças de veiculação hídrica.
Por isso, o tratamento de esgotos, torna-se cada vez mais necessário, associado a uma política de conscientização para controle da poluição”.
Reuso e Qualidade da Água
As indústrias dos Estados Unidos, Japão e Alemanha aumentaram sua produtividade e, ao mesmo tempo, reduziram o consumo de água, a partir do programa de reutilização. No Japão, foram mudadas as regras da construção civil. Lá, os condomínios, hotéis e hospitais passaram a ser construídos com sistemas particulares de reaproveitamento de águas servidas. Por exemplo, a água que sai pelo ralo do box ou da banheira segue por canos independentes até um pequeno reservatório que abastece os vasos sanitários do edifício. Só então ela vira esgoto, que, em algumas cidades, é tratado e reutilizado em processos industriais.
O tratamento dá condições de reutilização da matéria-prima água. O reuso “não planejado” de água já é adotado na Região Metropolitana de São Paulo. Mas deve ser implementado o reuso “planejado”, uma vez que os mananciais da bacia do Alto Tietê já estão sendo superexplorados. A Constituição Brasileira determina que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, um bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida e é dever do Poder Público e da coletividade defender e preservar o meio ambiente para as gerações presentes e futuras”. Apesar das inúmeras tentativas, essa preservação tem deixado a desejar. Córregos e rios são usados pela população como depósito de lixo.
Vejamos um exemplo:
Diariamente, as pessoas tentam se livrar do lixo muitas vezes jogando-o pela janela, seja a do carro, seja a de casa. Você já imaginou se todos fizessem isso, o que aconteceria com nossos rios, já tão poluídos? Um pedaço de papel jogado na Avenida Paulista irá descer pela encosta e, dependendo do lado em que o vento soprar, deverá chegar ao rio Tamanduateí ou rio Pinheiros. Qualquer um dos dois rios que receba esse papel irá levá-lo, certamente, ao rio Tietê. E se acumulará ao resto do lixo que é despejado nesse rio.
O papel demora um certo tempo para dissolver na água. Imagine os outros tipos de lixo despejados nesses rios e nos mananciais que abastecem a cidade! Por outro lado, como alguns rios da Grande São Paulo estão canalizados, as pessoas têm a impressão de que eles não existem. E como não são vistos, dificilmente a população lutará por sua qualidade.
E, por falar em qualidade, a água potável, tratada, que sai da rede de distribuição e chega às nossas casas, pode não chegar tão limpa às nossas torneiras. Você já parou para analisar as condições do encanamento de sua residência? Ferrugem e sujeira nos canos podem prejudicar a água potável que chega à sua casa. E a caixa d’água? Ela precisa ser limpa e desinfetada com cloro a cada 6 meses, usando escova de fibra vegetal ou plástico macio.
Nunca use sabão, detergente ou outro produto químico.
A água clorada que foi usada na desinfecção da caixa pode ser utilizada para lavar quintal e banheiros, por exemplo. Não se esqueça de verificar a bóia. Quando desregulada, pode provocar elevadas perdas de água pelo ladrão. E o que é fundamental: mantenha a caixa sempre muito bem tampada, para evitar a entrada de insetos e pequenos animais, que podem contaminar a água e provocar graves doenças.
Como Economizar Água
Você sabe quanto custa a água que consumimos? Um real cada mil litros. Parece pouco, mas esse custo poderá ser bem mais alto se a água não for utilizada de forma adequada, sem desperdícios. O cálculo da tarifa é progressivo: quanto maior o consumo, maior é o preço. A faixa de consumo de água por pessoa varia de 150 a 400 litros por dia.
Se a água for usada com economia, de maneira racional, o consumo será menor. E a conta também.
Vamos mostrar, na prática, como podemos economizar. Vamos começar verificando os vazamentos.
Para isso, você pode fazer alguns testes.
Feche o registro do cavalete de entrada da água em sua casa. Abra uma torneira alimentada diretamente pela rede de água – por exemplo, a do jardim ou a do tanque – e espere até escoar. Pegue um copo cheio d’água e coloque-o na boca da torneira. Se houver sucção da água do copo pela torneira, é sinal que existe vazamento no cano.
Outra maneira de detectar vazamento é fechar todas as torneiras e registros da casa e verificar se no hidrômetro, aparelho que mede o consumo de água, ocorre movimento dos números ou do ponteiro do relógio. Caso isso aconteça, certamente existe vazamento. Por exemplo, um pequeno buraco de dois milímetros, do tamanho da cabeça de um prego, vai desperdiçar em torno de 3.200 litros de água por dia. Esse volume é suficiente para o consumo de uma família de 4 pessoas, durante 5 dias, incluindo limpeza da casa, higiene pessoal, preparação de alimentos e água para beber. Além desses cuidados, existem outras maneiras de economizar água. Se a pessoa escovar os dentes em 5 minutos e fizer a barba em mais 5 minutos, deixando a torneira aberta, estará gastando 24 litros de água por dia, só com essas duas atividades, quantidade de água que uma pessoa poderia beber durante 12 dias.
Se a pessoa fizer essas mesmas atividades de maneira mais econômica, ou seja, mantendo a torneira fechada e só usando água quando for necessário, gastará, em média, dois litros. A economia será de aproximadamente 22 litros por dia. Evite usar o vaso sanitário como cesto de lixo. Papel, cotonete, algodão, pontas de cigarro não devem ser jogados no vaso. Se os 16 milhões de habitantes da Região Metropolitana de São Paulo deixarem de usar uma descarga por dia por causa desse lixo jogado em lugar indevido, serão economizados cerca de 160 milhões de litros d’água diariamente, o que equivale ao abastecimento de uma cidade do porte de Santo André, na Grande São Paulo.
Além de se evitar o tratamento de um volume maior de esgoto. Um dos recordistas do consumo de água no Brasil é o chuveiro. O banho de 15 minutos com ducha consome 135 litros de água por banho, com meia volta de água de abertura. Com o chuveiro elétrico comum, o mesmo banho vai consumir 45 litros. Uma grande economia pode ser conseguida se o tempo de banho for reduzido para 5 minutos e se o chuveiro ficar fechado enquanto a pessoa se ensaboa.
Outro detalhe: a ducha gasta 3 vezes mais do que o chuveiro comum. Existem modos econômicos também para lavar a louça, ensaboando com a torneira fechada e usando água só para enxaguar.
A roupa também pode ser lavada com economia. Deixe acumular. Não lave poucas peças por vez. Isso serve para o tanque e para a máquina de lavar.
Evite lavar calçadas e quintais. Não faça da mangueira a sua vassoura hidráulica. Varrer dá o mesmo resultado.
Lavar o carro durante 30 minutos com abertura de meia volta na torneira consome de 216 a 560 litros de água por lavagem. Se você usar um balde de 10 litros para molhar o carro e mais 3 baldes para enxaguar, você estará consumindo 40 litros por lavagem. É uma economia significativa.
É preciso evitar desperdícios. Uma torneira mal fechada, pingando, gasta 46 litros por dia, quantidade suficiente para matar a sede de uma pessoa por 20 dias. Se por descaso do usuário a torneira ficar aberta por 15 minutos com um quarto de volta, enquanto atende ao telefone, por exemplo, o gasto será de 108 litros. Com meia volta, 280 litros. Com uma volta completa, 380 litros de água serão gastos.
Hoje, quando há algum desperdício pelo uso abusivo de água, ninguém se incomoda. Mas esse comportamento terá de mudar.
Economizar e conservar a água é fundamental.
A consciência de que é preciso mudar está crescendo.Todos nós sempre dependemos da água. Agora a água também dependerá de nós, de nossas atitudes e comportamentos, de nosso grau de civilidade.
Uma chance ao Tietê
A cada segundo, o rio Tietê e seus afluentes recebem, só na região metropolitana de São Paulo, cerca de 35 mil litros de esgoto, de acordo com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Em 24 horas, a quantidade lançada chega ao impressionante total de 3 bilhões de litros. Isso sem contar os dejetos que são lançados ao rio antes de ele chegar à capital e o
lixo diretamente atirado em suas águas, como pneus, móveis, etc.
Há quase 60 anos, o Tietê é um rio “morto” na região metropolitana de São Paulo. Biologicamente falando, isso significa que ele não
apresenta suficiente oxigênio diluído para garantir a existência de um ecossistema. Porém, a definição biológica, por mais objetiva e esclarecedora que seja, não é a única interpretação para esse termo. Sob o ponto de vista urbano e social, o adjetivo ganha contornos um pouco mais complexos.
Símbolo de glória na época das bandeiras, quando ainda levava o nome indígena “Anhembi” e seus mil quilômetros de extensão serviam de guia aos primeiros exploradores do interior do estado, e de progresso no início do século 20, o Tietê é hoje motivo de vergonha para os paulistanos. Como seu leito é usado para receber praticamente todo o esgoto produzido pelos municípios da Grande São Paulo, o principal rio do estado é lembrado apenas pela sua feiúra, mau cheiro, enchentes e pelas doenças que transmite. Por isso, os paulistanos preferiram virar as costas para aquele que, durante séculos, foi motivo de orgulho para a cidade. E que, hoje, não passa de um incômodo problema.
“É uma pena que foi preciso aparecer um jacaré para o paulistano ver que existia um rio atravessando sua cidade”, reflete Mário Mantovani, diretor de Relações Institucionais da Fundação SOS Mata Atlântica, referindo-se ao réptil encontrado nas margens do poluído Tietê em 1990, e ironicamente apelidado de “Teimoso”. Na época, o acontecimento surpreendeu tanto os moradores da cidade, que, por conta dele, uma grande campanha de mobilização pública em prol da despoluição do rio foi criada em São Paulo. Encabeçada pela própria SOS Mata Atlântica, pela rádio Eldorado e pelo “Jornal da Tarde”, gerou um abaixo-assinado com 1,2 milhão de assinaturas, enviado ao governo do estado, e que exigia providências urgentes. Dois anos depois, nascia o Projeto Tietê, uma das maiores obras de saneamento da América Latina, com a missão de tentar reverter os danos que séculos de descaso e irresponsabilidade causaram ao velho Anhembi.
Já nos idos de 1792, um relatório anônimo denunciava os primeiros sinais de degradação dos recursos hídricos de São Paulo, resultado da exploração do ouro e do ferro. Segundo o texto, o rio Juqueri, no encontro com o Tietê, estava poluído, “parece que vomitando sangue, tingindo o Tietê muitas léguas com barro das lavras de Santa Fé e minas do Jaraguá”. Só que, naquela época, em vez dos 18 milhões de pessoas que hoje vivem na região metropolitana, a cidade não passava de uma pequena província, e contava com “dez carpinteiros, 21 alfaiates, 16 sapateiros, quatro ferreiros, quatro ourives e quatro pedreiros”, segundo levantamento feito pelo historiador Humberto Mello Nóbrega, publicado em seu livro História do Rio Tietê.
Algumas décadas depois, em 1820, o relato de dois irmãos, José Bonifácio e Martim Francisco Ribeiro de Andrada, confirmava que a situação não havia melhorado: “A primeira coisa que atraiu nossa atenção foi o miserável estado em que se acham os rios Tamanduateí e Tietê, sangrados em toda parte por sarjetas que formam lagos que inundam esta bela planície”.
Assim como esses, outros documentos denunciaram a precariedade dos rios paulistanos. Entretanto, até 1930, a poluição ainda não havia comprometido totalmente o Tietê. Suas margens eram um lugar aprazível, que convidava ao lazer e às atividades esportivas. Apenas na década seguinte, devido ao intenso processo de industrialização, as condições sanitárias começaram a se agravar.
Nos anos 1940, a água do rio, quando utilizada na irrigação de hortaliças, “queimava” as plantas. Em 1944, o ilustre esportista João Havelange, atleta da Associação Desportiva Floresta (Clube Esperia), em uma das disputas da tradicional Travessia de São Paulo a Nado, caiu doente, contaminado com febre tifóide, um sinal claro de que a saúde do Tietê não ia muito bem.
A partir de então, o processo de degradação se acentuou e, em 1950, o moribundo Tietê foi, enfim, declarado morto. E assim ele permaneceu por mais de 40 anos, sem que nada fosse feito para tentar reanimá-lo. Um dossiê produzido anualmente pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) informa que a situação da bacia do alto Tietê – que inclui o trecho do rio
compreendido desde a sua nascente, em Salesópolis, até a cidade de Pirapora do Bom Jesus, bem como seus afluentes – é extremamente grave. O relatório “Qualidade das Águas Interiores do Estado de São Paulo” afirma que, com exceção dos reservatórios de Juqueri, na serra da Cantareira, e Tanque Grande, em Guarulhos, “os demais rios desta bacia encontram-se totalmente comprometidos pelo grande aporte de esgotos domésticos e efluentes industriais, acarretando contaminação química, microbiológica e ausência total de oxigênio dissolvido”.
Há 102 anos, o engenheiro Joaquim José de Freitas, ao relatar a situação do Tietê ao secretário-geral da prefeitura, já alertava os governantes para a importância de “tratar quimicamente os despejos, antes de lançá-los ao rio, na Ponte Pequena, na barra do Tamanduateí e no Bom Retiro”. Porém, nada foi feito. Depois dele, outros especialistas também chamaram a atenção para as péssimas condições da água. “Mas, infelizmente, todas as soluções que surgiram foram ficando no papel. São Paulo sempre foi movida pelo progresso a qualquer custo. Jogar lixo no rio sempre foi a solução mais barata”, lamenta Aristides Almeida Rocha, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Do Lendário Anhembi ao Poluído Tietê.
Em 1926, o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, atendendo a um pedido do prefeito da época, Firmiano Pinto, criou o projeto intitulado Melhoramentos do Rio Tietê. Ele previa a redução da sua extensão de 46 para 26 quilômetros no trecho Guarulhos-Osasco, para aumentar e tornar constante a vazão da água. Também ressaltava a importância de reservar o rio para manancial de abastecimento da população e sugeria a construção de comportas para regularização do fluxo, de dois lagos com 1 milhão de metros quadrados de área junto à Ponte Grande e o represamento dos rios Biritiba, Jundiaí e Taiaçupeba, na altura de Mogi das Cruzes. O projeto era tão avançado que muitas das suas idéias acabaram sendo executadas nas décadas seguintes. Porém, na época em que foram propostas, nenhuma saiu do papel.
O principal entrave ao projeto de Saturnino de Brito levava o nome de uma empresa canadense. “A Light é uma das grandes culpadas pela situação calamitosa em que o Tietê se encontra hoje”, afirma Almeida Rocha. Segundo o professor, quando ela recebeu, em 1899, uma pioneira concessão para explorar os serviços de transportes urbanos na capital paulista, também precisou criar fontes de geração de energia para colocar os bondes em funcionamento. Por isso, solicitou ao governo uma autorização para represar o rio Guarapiranga. Em 1908, seu pedido foi atendido. “Outras concessões foram permitindo à empresa canadense deter o monopólio para gerar e distribuir energia elétrica em São Paulo, São Bernardo do Campo, Santo Amaro (então uma subprefeitura), Guarulhos,
Parnaíba, Sorocaba, São Roque, Una (Ibiúna) e Jundiaí”, informa o professor Almeida Rocha em seu livro.
Para manter seu lucrativo monopólio, a Light fazia de tudo para barrar qualquer outra atividade nas águas da região metropolitana que não fosse a geração de energia. Foi por isso que, mesmo tendo se comprometido a estabelecer uma hidrovia para escoamento de mercadorias e produtos através dos rios Tietê, Pinheiros e Grande, o que possibilitaria o acesso fluvial até o alto da serra do Mar, a Light não executou a obra. Foi também por esse motivo que a empresa moveu uma intensa campanha alertando a sociedade para o perigo do uso do Tietê para consumo humano. A propaganda surtiu efeito: a população leiga foi mobilizada e bairros inteiros protestaram contra essa possibilidade. Só que a Light não divulgava o fato de que, naquela época, as técnicas de tratamento já existiam, e diversos especialistas, como o próprio Saturnino de Brito e Teodoro Sampaio, eram contra a idéia da campanha movida pela empresa. “O rio estaria, assim, irremediavelmente condenado a servir à geração de energia e a ser transformado em veículo transportador dos esgotos domésticos e resíduos das indústrias”, aponta o professor Almeida Rocha em sua obra.
Os anos da perversa atuação da Light e de políticas públicas que sempre atenderam aos interesses do capital privado geraram resultados tão danosos que, hoje, 40% do volume total do rio é formado por esgoto. Porém, a situação já foi pior. Desde que as obras de despoluição do rio efetivamente começaram, em 1995, o Tietê e seus afluentes deixaram de receber cerca de 800 milhões de litros de esgoto por dia, o serviço de coleta na região metropolitana aumentou de 70% para 80% e o tratamento, de 24% para 62%. “São ações de grande importância, mas de pequeno impacto para uma cidade de 10 milhões de pessoas”, reflete Luís Eduardo Bevilacqua, gerente da Divisão de Qualidade de Águas da Cetesb.
Essas pequenas melhorias, que ainda não são perceptíveis ao cidadão, foram alcançadas à custa de trabalho duro e muito capital investido. Em nove anos, o rio já consumiu mais de R$ 3,1 bilhões em recursos públicos e privados, divididos entre o Projeto Tietê, da Sabesp, e o Programa de Combate a Enchentes, da Secretaria de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento do governo do estado. Enquanto o primeiro visa criar um sistema de coleta e tratamento de esgoto na região metropolitana de São Paulo, o segundo tem como atividade principal o rebaixamento da calha e a impermeabilização das margens, para aumentar a vazão do rio.
“Essa última iniciativa não teve nenhuma participação da sociedade civil. Além disso, ela não deveria estar desvinculada do projeto de despoluição. Isso confunde a população”, critica Mantovani. Porém, o diretor da SOS Mata Atlântica se diz otimista quanto aos resultados do programa da Sabesp. “O Projeto Tietê está tendo continuidade. A primeira fase consumiu R$ 1,1 bilhão, e o dinheiro foi muito bem gasto.” O jornalista Henrique Nicolini, autor do livro Tietê – O Rio do Esporte, partilha da opinião de Mantovani. “Esta é a primeira vez que um programa de despoluição do rio está sendo feito com seriedade. Ao longo dos anos, muitos outros já foram
criados, mas nunca houve vontade política para levá-los adiante”, afirma.
O Projeto Tietê foi dividido pela Sabesp em etapas. A primeira fase, que começou em 1995 e se estendeu até 1998, contou com recursos da própria Sabesp (R$ 550 milhões), do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID (R$ 450 milhões) e da Caixa Econômica Federal (R$ 100 milhões). Nesse período, foram construídas três estações de tratamento de esgotos (ETEs) – São Miguel, Parque Novo Mundo e ABC -, que, juntas, têm capacidade para tratar 7 mil litros de esgoto por segundo, e a ETE Barueri teve sua capacidade ampliada de 7 mil para 9 mil litros por segundo. Além disso, a Sabesp também fechou o cerco às indústrias que jogavam poluentes nos rios.
Durante uma visita dos técnicos do BID ao Brasil, em 1999, o Projeto Tietê ganhou o título de programa de saneamento mais bem gerenciado do mundo. O êxito da primeira fase credenciou o governo do estado a negociar um novo financiamento com o banco, que liberou mais R$ 600 milhões (US$ 200 milhões).
Com outros R$ 600 milhões em recursos investidos pela Sabesp, em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a segunda etapa do programa começou em maio de 2002 e deve estar concluída no final de 2005.
“Agora que as ETEs já têm capacidade para tratar um grande volume de esgoto, estamos dando prioridade à construção de tubulações que liguem as casas às estações de tratamento”, explica Marcelo Rampone, coordenador do Projeto Tietê, da Sabesp. No total, serão feitas 290 mil ligações domiciliares e construídos sob a terra 1,4 mil quilômetros de redes coletoras. Depois de concluídas essas obras, a Sabesp estima que outros 300 milhões de litros de esgoto deixarão de ser despejados nos rios todos os dias. O índice de coleta de esgoto passará de 80% para 84%, e o de tratamento, de 62% para 70%.
Embora não façam parte do projeto de despoluição e visem conter as enchentes na cidade, as obras de aprofundamento da calha do Tietê também estão trazendo benefícios ao velho Anhembi. Até o final de 2005, serão retirados 6 milhões de metros cúbicos de sedimentos e cerca de 110 mil pneus do fundo do rio.
O trabalho, que começou em 1998 e conta com recursos do Japan Bank International Cooperation (JBIC), deve estar pronto no final de 2005. A partir de então, todo o trecho de 41 quilômetros compreendido entre a barragem da Penha, na zona leste da capital, e a Edgard de Sousa, em Santana de Parnaíba, terá sua calha ampliada para uma profundidade mínima de 2,5 metros. Atualmente,
cerca de 80% da obra está concluída. Já as margens estão recebendo uma cobertura de concreto, para evitar o assoreamento. “Ou seja, o Tietê apresenta hoje condições de navegabilidade em praticamente toda a região metropolitana de São Paulo”, diz Rui Cláudio Carvalho, do Departamento de Águas e Energia Elétrica, que faz parte da Secretaria de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento do governo do estado.
Os paulistanos já estão usufruindo os benefícios da obra: há mais de dois anos não há enchentes no rio. Já os resultados obtidos pela Sabesp só são percebidos em cidades banhadas pelo Tietê depois de São Paulo. “A extensão em que o rio se encontra morto já sofreu uma redução de 80 quilômetros, e cidades como Porto Feliz, Itu e Salto estão vendo os peixes voltarem às águas”, afirma Rampone. Entretanto, segundo o relatório da Cetesb, a mudança ainda não pode ser estatisticamente comprovada. “Na visão da Cetesb, essa melhora ainda não fica evidente”, contesta Bevilacqua.
Na opinião do coordenador do Projeto Tietê, o maior desafio agora é diminuir o despejo dos dejetos que vêm das casas. “Com a poluição industrial controlada, o esgoto doméstico é o grande vilão da história, pois sua contaminação é muito dispersa”, explica ele. “Se conseguirmos controlá-la, a vida vai voltar ao Tietê.”
Por mais que seja majoritária, a poluição orgânica dos esgotos não é a única presente no Tietê. Cargas difusas, carregadas pelas águas das chuvas, metais pesados e inseticidas também contaminam a água. “O combate a esses poluentes é um trabalho secundário mas importante”, alerta o professor Almeida Rocha.
De acordo com o engenheiro Bevilacqua, a principal preocupação da Cetesb hoje é um componente mineral presente em 85% das amostras coletadas: o fósforo.
Encontrado nos dejetos humanos (urina e fezes) e também nos detergentes em pó, ele acelera um processo biológico conhecido como eutroficação. O aumento do material orgânico lançado nas águas oferece condições para que as cianobactérias (algas azuis) se reproduzam de maneira exagerada. “Isso, além de diminuir a taxa de oxigênio dissolvido, faz com que um reservatório tenha sua vida útil encurtada”, alerta o gerente da Divisão de Qualidade de Águas da Cetesb. Segundo ele, a presença de fósforo tem um outro agravante: o tratamento desse componente é caro e precisa ser feito separadamente.
A Cetesb destaca ainda outros três tipos de poluentes presentes em quantidades significativas no Tietê: os metais pesados (chumbo, cobre, zinco, etc.), lançados na água pelas indústrias, o DDT (tipo de inseticida que hoje tem sua utilização proibida) e os PCBs (substâncias cujo uso também não é mais permitido, mas que estão presentes em transformadores e capacitores fabricados antes da legislação que os baniu, em 1981).
A análise dos sedimentos da bacia do Alto Tietê também aponta contaminação. Uma das substâncias tóxicas presentes é o chumbo tetraetila, utilizado na composição da gasolina na década de 80, e até hoje encontrado no leito do Tietê e de seus afluentes. De acordo com a Cetesb, os dois locais que enfrentam a situação mais crítica são os reservatórios de Pirapora e Rasgão, que recebem toda a carga poluidora da região metropolitana. “Nos outros pontos, a contaminação dos sedimentos merece atenção e precisa ser monitorada, mas não chega a ser alarmante”, garante Bevilacqua.
A despoluição do Tietê é um projeto de longo prazo e, para que seus objetivos sejam alcançados, é necessário o empenho de sucessivas gestões de governo e uma cobrança constante da sociedade. “Também é preciso fazer um amplo trabalho de conscientização da população”, salienta Mário Mantovani.
Para os especialistas, é difícil estimar quando o rio poderá abrigar novamente vida aquática. Marcelo Rampone acredita que ele terá condições para a prática de atividades náuticas e esportivas daqui a dez anos.
“Já posso vislumbrar os barcos de passeio carregados de famílias navegando pelo Tietê”, anima-se Marco Antônio Castello Branco, secretário de Turismo do estado, que, recentemente, convidou um grupo de jornalistas para um passeio de barco pelo rio dentro da capital paulista. “Quero mostrar à sociedade que ele pode ser explorado economicamente”, diz. Mas, para o diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, o Tietê não irá se recuperar: “Nunca mais o teremos para nadar. A despoluição trará apenas mudanças para
a qualidade de vida da população, como a diminuição de doenças. Mas o rio sempre estará em uma situação ruim”, diz Mantovani.
Por mais que as perspectivas sobre o futuro do mais importante rio de São Paulo sejam divergentes, uma coisa é certa: ele nunca voltará a ser como antes.
Seus meandros, que foram decepados pelas infindáveis obras de retificação do leito, não voltarão a existir. Suas margens, que estão recebendo cobertura de concreto, não irão mais abrigar a flora dos tempos das bandeiras. “Agora, precisamos entender o rio dentro do contexto urbano de São Paulo, para, aí, sim, pensar em melhorias”, defende o professor Almeida Rocha.
Para o jornalista Nicolini, que por muitos anos cobriu regatas e provas de natação no Tietê para o jornal “Gazeta Esportiva”, presenciar a degradação do Tietê foi um processo lento e dolorido, semelhante a envelhecer.
“Cada dia eu via que ele morria um pouco. Mas o grande impacto ocorreu quando a ‘Gazeta’ suspendeu a travessia de São Paulo a nado, em 1944.” No auge dos seus 78 anos, ele reflete: “A história não volta, fica apenas na memória das pessoas que, como eu, já nadaram no Tietê. Mas, mesmo hoje, retificado, cortando uma cidade como São Paulo, ele pode voltar a ter vida e beleza. E espero viver para ver”.
O Tâmisa, na Inglaterra, hoje um dos cartões-postais de Londres, é a grande prova de que um rio poluído pode voltar a ter vida, mesmo atravessando uma metrópole. Suas águas, que no século 19 exalavam um cheiro tão insuportável que algumas sessões do Parlamento tiveram de ser suspensas, hoje são cenário de pescarias, passeios de barco, prática de esportes e de turismo.
A poluição do Tâmisa vem de longa data. Em 1610, a água deixou de ser potável e, no final do século 19, ele foi declarado morto. Para tentar reverter a situação, o governo construiu em Londres, no início do século 20, um sistema de captação de esgotos e, com isso, o rio se recuperou por alguns anos. No entanto, como os dejetos não eram tratados, mas apenas coletados e lançados mais adiante no próprio curso, o Tâmisa não resistiu por muito tempo e, em 1950, foi novamente declarado morto.
Dessa vez, os ingleses investiram em uma solução definitiva, que custou US$ 20 bilhões, aplicados ao longo de 20 anos. Ainda na década de 1950, foram construídas as primeiras estações de tratamento. O governo também promoveu uma ampla campanha de conscientização da população, para ensinar aos cidadãos que o rio não era lugar de jogar lixo ou esgoto. Na década de 1970, os peixes voltaram a viver no Tâmisa. Hoje, suas águas abrigam 121 espécies diferentes.
O rio atualmente é gerenciado pela Thames21, uma organização composta, entre outros, pela Agência do Meio Ambiente do governo, pela Autoridade do Porto de Londres e por representantes da sociedade civil. A entidade zela pela qualidade da água, aplica o dinheiro arrecadado com impostos em projetos sociais e educacionais ligados ao rio e realiza uma limpeza anual do fundo.
Mesmo com tanto cuidado, todos os anos ainda são retiradas do leito do Tâmisa cerca de mil toneladas de lixo.
(Juliana Borges)
Aqui vocês encontrarão informações sobre as cidades que são banhadas pelo nosso Grande Rio Tietê. Dados como população urbana, população rural e total de área, são informações retiradas do IBGE do ano de 2000.
Informações de algumas cidades só foram possíveis com ajuda das prefeituras locais que gentilmente nos atenderam, as quais listo e agradeço a seguir.
Se o Rio Tietê passa pela sua cidade e ela não consta aqui, ou se não foi colocado algum dado que você julgue importante para conhecimento geral, envie informações para
riotiete@riotiete.com.br , assim você estará ajudando a enriquecer nossa página.
Agradecimentos
Biblioteca Municipal de Suzano
Prefeitura Municipal de Conchas (Rosangela)
Prefeitura Municipal de Mineiros do Tietê (Odilei)
Prefeitura Municipal de Sales (José Amêndola in memória) exemplo de dedicação a sua cidade.
Prefeitura Municipal de Adolfo
Prefeitura Municipal de José Bonifácio (José Reis)
Prefeitura Municipal de Zacarias
Prefeitura Municipal de Sabino (Lenita)
Prefeitura Municipal de Barbosa (Ademar)
Prefeitura Municipal de Reginópolis (Damião)
Prefeitura Municipal de Santo Antonio do Aracanguá (Francisco Magosteiro)
Prefeitura Municipal de Andradina (Paulo)
Prefeitura Municipal de Buritama (Mara)
Agora vamos ao nosso Grande Rio Tietê.
Salesópolis – Biritiba Mirim – Mogi das Cruzes – Suzano – Itaquaquecetuba – Guarulhos – São Paulo – Osasco – Barueri – Santana de Parnaíba – Pirapora do Bom Jesus – Cabreúva – Salto – Itu – Porto Feliz – Tietê – Laranjal Paulista – Conchas – Anhembi – São Manuel
Mineiros do Tietê – Macatuba – Igaraçu do Tietê – Barra Bonita – Jaú – Pederneiras – Itapuí – Boracéia – Bariri – Itaju – Arealva – Ibitinga – Iacanga – Reginópolis – Pongaí – Borborema – Cafelândia – Novo Horizonte – Sabino – Sales – Promissão – Adolfo – José Bonifácio Ubarana – Barbosa – Penápolis – Zacarias – Buritama – Birigüi – Araçatuba – Santo Antônio do Aracanguá – Sud Menucci
Pereira Barreto – Andradina – Castilho – Itapura
História do Rio
O nosso Rio Tietê, segundo pesquisas, tem entre 10 e 15 milhões de anos, com 1136 km ele corta todo o Estado de São Paulo, até chegar no rio Paraná, na divisa com Mato Grosso do Sul. Os índios o chamavam de Anhembi, mas ele ficou famoso como Tietê, o rio das conquistas, o caminho dos Bandeirantes nos séculos XVI – XVII.
O Tietê nasce em Salesópolis a 22 km do Oceano Atlântico, mas corre para dentro do nosso Estado, por isso foi muito utilizado como estrada de acesso por índios, bandeirantes e religiosos, que necessitavam chegar as vilas que cresciam a beira do rio. Segundo conta a história, os Jesuítas navegavam entre os rios Tietê, Tamanduateí e o Pinheiros (Jeribatiba na época) para que pudessem chegar nos pontos mais distantes da jovem cidade.
Os Bandeirantes atravessavam todo o Estado pelo Rio Tietê até chegarem no rio Paraná alcançando desta forma a região sul do nosso País desbravando terras e dando ao nosso País o formato que hoje conhecemos.
Em 1700 já há relatos de exploração de ouro e ferro em São Paulo, causando variações na cor das águas do Tietê, já na metade do século XVIII a exploração da cultura do açúcar provocava o desmatamento das margens do rio.
Em 1900 já existiam mais de 150 empresas jogando lixo no Tietê, como resultado, em 1970 o índice de oxigênio na água é zero, há apenas mau cheiro, moscas e espumas no Tietê.
Entenda o rio
O Rio Tietê nasce na cidade de Salesópolis, o rio começa a ser poluído 15 km depois, na cidade de Mogi das Cruzes. Como a cidade de São Paulo fica na cabeceira do rio, a vazão não é grande o suficiente para delir os poluentes que recebe.
Seus grandes inimigos estão na região metropolitana, onde a maior parte dos dejetos das indústrias e do esgoto produzidos nas casas são jogados no Tietê. Cerca de 134 toneladas de lixo inorgânicos são despejadas no rio diariamente.
O crescimento desordenados da metrópole leva a ocupação irregular de terrenos. Moradores clandestinos vivem nas margens e nas áreas dos mananciais que alimentam o rio.
Nos 30 centímetros superficiais, ainda há trechos com oxigênio para raros peixes. Os dois metros abaixo são formados de água imunda que se move lentamente. Os últimos 5 metros são um gigantesco depósito de lixo. Com até 100 metros de largura, o Tietê esconde, a 7 metros de profundidade, geladeiras, sofás e carcaça de automóveis. Num processo de permanente de drenagem, 68 toneladas de lixo e areia são retiradas mensalmente.
Garças e capivaras fogem do Parque Ecológico Tietê e são vistas nas margens do Rio, até jacaré já apareceu. Somente os peixes que respiram na superfície conseguem sobreviver nas águas da capital, é preciso existir 4 miligramas de oxigênio por litro de água. Hoje o índice é zero.
Na capital, o rio se transforma em uma mancha preta que se estende por 250 Km até perto da cidade de Barra Bonita. Só então a água volta a ficar limpa, com uma quantidade de peixes e nível de oxigênio satisfatórios.
Até os anos 40, diversas eram as atividades de lazer que usavam o rio como: natação, remo e pesca. Tudo isto acabou, mas poderá voltar um dia, pois as possibilidades técnicas existem, apenas é preciso coloca-las em prática. Se houver um programa que dê resultado, “não será um sonho impossível imaginar que poderemos um dia nadar e pescar num rio de verdade, como se fazia há 50 anos atrás”.
Hoje já são navegáveis 2400km entre Barra Bonita, São Simão, que faz divisa de Goiás com Minas Gerais e Foz do Iguaçu. Outra possibilidade, no futuro, é tomar um barco na Ponte das Bandeiras, em São Paulo e chegar a Buenos Aires pela Hidrovia Tietê-Paraná, o que transformará a Bacia do Prata num enorme sistema fluvial de navegação, a exemplo do que foi feito na Europa, séculos atrás. As vantagens serão tanto econômicas como ambientais: um comboio de barcaças com capacidade para 2.200 toneladas equivale a carga de 70 caminhões. É um transporte mais barato, pela economia de combustível além da diminuição dos custos de manutenção das estradas e a redução da poluição atmosférica devido a queda do consumo de combustíveis.
O Tietê que garantiu a energia necessária ao desenvolvimento de São Paulo, transforma-se hoje em estrada que expande a fronteira econômica do Brasil através do Mercosul.
Só depois que a última árvore for derrubada,
o último peixe for morto,
o último rio poluído,
os Homens perceberão que dinheiro não se come.
Informações detalhadas do Rio Tietê
O rio Tietê é o mais tradicional curso d’água do estado de São Paulo, não só por cortar sua capital, como também por atravessar, praticamente, todo o território paulista, desde os contrafortes da Serra do Mar até o rio Paraná, extremo oeste do estado. Nasce no município paulista de Salesópolis, nos contrafortes da Serra do Mar, aproximadamente na cota 1.120m acima do nível do mar. Embora nascendo a menos de 22Km de distância, em linha reta do oceano suas águas percorrem mais de 3,7mil Km antes de serem lançadas ao estuário do Prata, através do rio Paraná. Devido às obras de reversão, as águas de cabeceira são desviadas diretamente para o mar, gerando grande quantidade de energia nas usinas de Cubatão. Desemboca o rio Tietê no Alto Paraná, pouco à jusante do salto de Urubupungá, afogado pela barragem de Jupiá, que represa também as águas do Tietê nos seus últimos quilômetros de percurso, na cota aproximada de 220 m. O comprimento total do rio é de 1,15m mil Km e seu desnível entre a desembocadura e as cabeceiras de pouco mais de 860m o que dá uma declividade média global de 74cm/Km. O grande desnível de seu curso tem sido aproveitado para construção de várias barragens destinadas à produção de energia hidrelétrica. A declividade do leito do rio Tietê é bastante variável, dependendo da natureza e características dos terrenos atravessados. No primeiro trecho, na Serra do Mar, ela é muito acentuada, reduzindo-se sensivelmente, à medida que o rio se aproxima do planalto paulistano; considerando-se unicamente o trecho à jusante da capital de São Paulo, até a desembocadura, a declividade média total baixa a menos de 50cm/Km; no trecho encachoeirado entre o fim da canalização do rio, no município de São Paulo até Salto de Itu, num percurso de cerca de 80Km, a declividade aumenta novamente atingindo cerca de 200cm/Km. Daí em diante, a declividade média cai a 30cm/Km.
Considera-se o rio Tietê dividido em quatro trechos:
Alto Tietê
Das nascentes até a cidade de Pirapora do Bom Jesus, com aproximadamente 250Km de extensão e 350m de desnível.
O Alto Tietê percorre em região de grande aglomeração populacional, tendo suas condições naturais intensamente modificadas pela ação humana; no trecho superior, corre ainda em corrente livre, correspondendo a região de cabeceira, tem larguras e profundidades reduzidas e elevada sinuosidade. No município de Mogi, já apresenta largura considerável e profundidades que ultrapassam, no período de estiagem, mais de 1,5m em média. No estirão metropolitano de São Paulo, o rio encontra-se com leito artificial, numa extensão de 26Km, em um canal com largura de 45m, largura esta aumentada para 56m após a confluência com o rio Tamanduateí; a profundidade normal do canal é de 5,7m.
À jusante do município da capital, numa pequena extensão corre o rio Tietê em corrente livre, com leito irregular, Em seguida, o curso d’água encontra-se represado por duas barragens, provida à de montante, de estação de bombeamento que inverte o sentido de escoamento das águas para o canal do rio Pinheiros, por onde é desviada quase toda da vazão natural.
Médio Tietê superior
Da cidade de Bom Jesus de Pirapora à cidade de Laras, onde atinge o remanso da barragem de Barra Bonita, tem 260Km de extensão e 218m de desnível. Abrange também dois subtrechos bem diferenciados: o de montante que vai da barragem de Pirapora até o Salto de Itu, em que o pouco as águas restantes após o bombeamento para a reversão de Cubatão desce abruptamente cerca de 150m em 80Km de percurso; corre o rio encachoeirado, entre gargantas e margens profundas, que em alguns pontos forma verdadeiros canions.
No trecho encachoeirado, entre Pirapora e Itu, como as vazões são reduzidas em estiagem a pouco mais de 1m3/s, as profundidades são extremamente baixas: o leito é rochoso, existindo numerosos saltos de pequena altura de queda livre. A declividade média nestes 80Km ultrapassa 2m/Km. Há, no trecho, pequenas barragens para produção de energia, consumida por particulares no local.
No subtrecho seguinte, o rio corre suavemente entre colinas elevadas e numerosas curvas, sem obstáculos de maiores proporções além de diversas corredeiras. A profundidade média no trecho entre Salto de Itu e Laras é da ordem de 2m, em estiagem normal, caindo em alguns estirões, a menos de 1,0m. As larguras neste mesmo estirão estão compreendidas entre 70 e 150m. O leito é bem sinuoso, com 4 ou 5 grandes meandros de fortes curvaturas.
A declividade média do Médio Tietê Superior é de 87cm/Km, sendo reduzida a 20cm/Km, entre o Salto do Itu e Laras. A bacia que este trecho drena é de 9.920Km2, estando localizada na mesma, algumas cidades importantes como Jundiaí e Sorocaba.
Médio Tietê Inferior
Da cidade da Laras até a corredeira de Laje. Encontra-se praticamente todo canalizado, por uma série de barragens de aproveitamento múltiplo. Quando o rio corria livremente, era atravessado por numerosas corredeiras originadas pelo cruzamento de diversos travessões basálticos, não havendo, porém, nenhuma grande queda no trecho.
A largura do Médio Tietê, oscilava então em torno de 150m e suas profundidades médias em estiagens era da ordem de 2m, exceto nos travessões rochosos, onde baixavam, por vezes em longos estirões, a menos de 0,5m; a declividade média do rio, entre a cidade de Laras e a corredeira de laje era de cerca de 23,5cm/Km, valor bastante baixo, sobretudo considerando-se a existência dos rápidos referidos.
A área drenada pelo Médio Tietê e de 42.277Km2, havendo na sua bacia numerosas cidades importantes, entre as quais: Americana, Araraquara, Bauru, Botucatu, Campinas, Jaú, Limeira, Lins Piracicaba, Rio Claro e São Carlos.
O principal afluente do Médio Tietê é o rio Piracicaba, com 185Km de extensão desde a confluência de seus formadores o rio Jaguari e Atibaia. No baixo rio Piracicaba as larguras variam de 30 a 50m e a profundidade média entre 1,5 e 2,0m. Em seu estirão de jusante tem suas águas represadas pela barragem de Barra Bonita, atingindo o remanso, com o reservatório cheio, a ponte da SP-191 em Santa Maria da Serra, a cerca de 60Km da foz.
Baixo Tietê
Da corredeira de Laje até a foz no rio Paraná, com 240km de extensão e 98m desnível.
Apresenta fraca sinuosidade, larguras consideráveis, que vão de 150m a mais de 300m. É cortado por duas grandes cachoeiras: salto de Avanhandava, com 19m de queda, no Km 210 e o salto de Itapura, próximo a desembocadura e afogado pela barragem de Jupiá, no rio Paraná. A declividade média do trecho é de 42cm/Km, sendo que à jusante do salto Avanhandava baixa a menos de 23cm/Km.
O Baixo Tietê drena uma área de 13.646Km, em sua bacia contribuinte há apenas uma cidade de maior importância: Andradina.
O rio Tietê é atualmente navegável no trecho do remanso da barragem de Jupiá (40Km) e no trecho entre a barragem de Nova Avanhandava e do remanso da barragem de Barra Bonita, formando um estirão contínuo de 443Km de extensão já em utilização.
A hidrovia Tietê-Paraná oferece condições técnicas de navegação comparáveis às hidrovias internacionais. Os gabaritos adotados nas obras e canais de navegação são similares ou, até mesmo em alguns casos, mais favoráveis do que os de hidrovias estrangeiras que já apresentam tráfego intenso. É o caso, por exemplo, do Alto Sena, na França, que movimenta 16 milhões t/ano ou o rio Escaut na Bélgica, cujo transporte atinge 8 milhões t/ano. O canal do norte, na França, interligando a bacia do Sena com as regiões de Lille e Dunquerque, concluído no final da década de 60, tem eclusas com apenas 6,0m de largura e 90,0m de comprimento, apenas 30% da área das eclusas do rio Tietê.
As obras de canalização do rios Tietê e Paraná foram, na maior parte, realizadas sem previsão de utilização imediata da hidrovia.
Estudos comprovaram que os comboios de empurra, sistema criado pelos norte-americanos, oferecem vantagens econômicas. Daí a necessidade de adaptar as eclusas do rio Tietê, projetadas na década de 50 de acordo com a navegação européia, onde se utilizam embarcações isoladas.
Os comboios-empurra exigem alguns requisitos particulares como construção de muros guias retilíneos alinhados com os muros de ala das eclusas, certa altura livre sobre o nível de água e raios de curvatura do canal de navegação compatíveis com seu comprimento.
Para o rio Tietê, onde a navegação está sendo implantada, o ideal será preparar a via para o sistema de comboios como já vem sendo feito no Alto Paraná. Por essa razão foi adotada como embarcação-tipo, um comboio de empurra com dimensões máximas compatíveis com as das câmaras das eclusas concluídas.
Curtas
* Piratininga = peixe secado.
* Em 1560 já existia o eixo Tamanduateí – Tietê para o interior.
* Em 1849 , com a retificação do Tamanduateí acabou a navegação.
* No final do século 19 começo do séc 20 , era retirado barro do Tietê para a feitura de tijolos que construíam as casas e prédios na cidade de São Paulo, os tijolos eram armazenados nas margens.
* Meados do séc 19 , começa a canalização de água em São Paulo, pela Cia Cantareira de Água e Esgoto.
* Os eixos ferroviários obriga a cidade a cruzar os rios.
* No meio da Av. 9 de Julho passa o Reuno, que hoje está canalizado.
* Em 1894 começa a construção dos reservatórios urbanos, em 1897 começa a explosão da cidade, é o primeiro ciclo de industrialização e grandes loteamentos.
* Como o crescimento da cidade é muito grande , se fez necessário que os reservatórios sejam construídos mais longe, as passagens de canos se torna cada vez maior.
* Saturnino de Brito coloca o Tietê como manancial da cidade, mas não aceitaram, isso no início do séc. 20.
* Em 1929, reversão do Pinheiros para gerar energia.
* Em 1930, grandes jazidas de areia nas margens do Tietê, areia que vem de Itaquaquecetuba para as construções em São Paulo.
* O Rio Tietê foi o último a ser retificado, na zona norte existiam depósitos de lixo, isso em 1950.
* A capital produz de 12 a 15 mil toneladas de lixo ao dia.
* Em 1960 as jazidas de areia em São Paulo estão esgotadas, em 1969 , após a retificação, as marginais são inauguradas.
* Serra do Mar e Serra da Cantareira são os nossos 2 mananciais.
* Rio Pinheiros , acumula água na Billings, e gera energia na usina Borba.
* Desde 1920 estão previstas a construção de coletores de esgoto, mas demoram décadas para se fazer.
* O que prevaleceu em São Paulo, foi o interesse econômico, aqui era um espaço hídrico, área de inundação; em 1926 , Saturnino de Brito avisava, que se houvesse valorização das terras nós acabaríamos ocupando as terras dos Rios.
* Estudos mostram que o solo do Tietê está contaminados com Ferro, Alumínio e Manganês, pode passar 100 anos que não vai ficar despoluído, tem que se retirar 2,5m do fundo do rio para limpá-lo.
* Os EUA gastaram 420 bilhões de dólares nos últimos 20 anos para tratar 100% do seu esgoto.
* Nós produzimos 62 m3 de esgoto por segundo e a vazão do Tietê na saída de São Paulo é de 50 m3 por segundo, insuficiente para diluir toda o esgoto produzido.
* No final da limpeza do Tietê , 120 mil carcaças de pneus serão retirados.
* Para atender ao crescimento da cidade/população temos que aumentar a produção de água em 2 m3 por segundo ao ano.
* A capital produz de 12 a 15 mil toneladas de lixo ao dia.
Uma chance ao Tietê
A cada segundo, o rio Tietê e seus afluentes recebem, só na região metropolitana de São Paulo, cerca de 35 mil litros de esgoto, de acordo com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Em 24 horas, a quantidade lançada chega ao impressionante total de 3 bilhões de litros. Isso sem contar os dejetos que são lançados ao rio antes de ele chegar à capital e o lixo diretamente atirado em suas águas, como pneus, móveis, etc.
Há quase 60 anos, o Tietê é um rio “morto” na região metropolitana de São Paulo. Biologicamente falando, isso significa que ele não apresenta suficiente oxigênio diluído para garantir a existência de um ecossistema. Porém, a definição biológica, por mais objetiva e esclarecedora que seja, não é a única interpretação para esse termo. Sob o ponto de vista urbano e social, o adjetivo ganha contornos um pouco mais complexos.Símbolo de glória na época das bandeiras, quando ainda levava o nome indígena “Anhembi” e seus mil quilômetros de extensão serviam de guia aos primeiros exploradores do interior do estado, e de progresso no início do século 20, o Tietê é hoje motivo de vergonha para os paulistanos. Como seu leito é usado para receber praticamente todo o esgoto produzido pelos municípios da Grande São Paulo, o principal rio do estado é lembrado apenas pela sua feiúra, mau cheiro, enchentes e pelas doenças que transmite. Por isso, os paulistanos preferiram virar as costas para aquele que, durante séculos, foi motivo de orgulho para a cidade. E que, hoje, não passa de um incômodo problema.
“É uma pena que foi preciso aparecer um jacaré para o paulistano ver que existia um rio atravessando sua cidade”, reflete Mário Mantovani, diretor de Relações Institucionais da Fundação SOS Mata Atlântica, referindo-se ao réptil encontrado nas margens do poluído Tietê em 1990, e ironicamente apelidado de “Teimoso”. Na época, o acontecimento surpreendeu tanto os moradores da cidade, que, por conta dele, uma grande campanha de mobilização pública em prol da despoluição do rio foi criada em São Paulo. Encabeçada pela própria SOS Mata Atlântica, pela rádio Eldorado e pelo “Jornal da Tarde”, gerou um abaixo-assinado com 1,2 milhão de assinaturas, enviado ao governo do estado, e que exigia providências urgentes. Dois anos depois, nascia o Projeto Tietê, uma das maiores obras de saneamento da América Latina, com a missão de tentar reverter os danos que séculos de descaso e irresponsabilidade causaram ao velho Anhembi.
Já nos idos de 1792, um relatório anônimo denunciava os primeiros sinais de degradação dos recursos hídricos de São Paulo, resultado da exploração do ouro e do ferro. Segundo o texto, o rio Juqueri, no encontro com o Tietê, estava poluído, “parece que vomitando sangue, tingindo o Tietê muitas léguas com barro das lavras de Santa Fé e minas do Jaraguá”. Só que, naquela época, em vez dos 18 milhões de pessoas que hoje vivem na região metropolitana, a cidade não passava de uma pequena província, e contava com “dez carpinteiros, 21 alfaiates, 16 sapateiros, quatro ferreiros, quatro ourives e quatro pedreiros”, segundo levantamento feito pelo historiador Humberto Mello Nóbrega, publicado em seu livro História do Rio Tietê. Algumas décadas depois, em 1820, o relato de dois irmãos, José Bonifácio e Martim Francisco Ribeiro de Andrada, confirmava que a situação não havia melhorado: “A primeira coisa que atraiu nossa atenção foi o miserável estado em que se acham os rios Tamanduateí e Tietê, sangrados em toda parte por sarjetas que formam lagos que inundam esta bela planície”.
Assim como esses, outros documentos denunciaram a precariedade dos rios paulistanos. Entretanto, até 1930, a poluição ainda não havia comprometido totalmente o Tietê. Suas margens eram um lugar aprazível, que convidava ao lazer e às atividades esportivas. Apenas na década seguinte, devido ao intenso processo de industrialização, as condições sanitárias começaram a se agravar.
Nos anos 1940, a água do rio, quando utilizada na irrigação de hortaliças, “queimava” as plantas. Em 1944, o ilustre esportista João Havelange, atleta da Associação Desportiva Floresta (Clube Esperia), em uma das disputas da tradicional Travessia de São Paulo a Nado, caiu doente, contaminado com febre tifóide, um sinal claro de que a saúde do Tietê não ia muito bem.
A partir de então, o processo de degradação se acentuou e, em 1950, o moribundo Tietê foi, enfim, declarado morto. E assim ele permaneceu por mais de 40 anos, sem que nada fosse feito para tentar reanimá-lo. Um dossiê produzido anualmente pela Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) informa que a situação da bacia do alto Tietê – que inclui o trecho do rio compreendido desde a sua nascente, em Salesópolis, até a cidade de Pirapora do Bom Jesus, bem como seus afluentes – é extremamente grave. O relatório “Qualidade das Águas Interiores do Estado de São Paulo” afirma que, com exceção dos reservatórios de Juqueri, na serra da Cantareira, e Tanque Grande, em Guarulhos, “os demais rios desta bacia encontram-se totalmente comprometidos pelo grande aporte de esgotos domésticos e efluentes industriais, acarretando contaminação química, microbiológica e ausência total de oxigênio dissolvido”.
Há 102 anos, o engenheiro Joaquim José de Freitas, ao relatar a situação do Tietê ao secretário-geral da prefeitura, já alertava os governantes para a importância de “tratar quimicamente os despejos, antes de lançá-los ao rio, na Ponte Pequena, na barra do Tamanduateí e no Bom Retiro”. Porém, nada foi feito. Depois dele, outros especialistas também chamaram a atenção para as péssimas condições da água. “Mas, infelizmente, todas as soluções que surgiram foram ficando no papel. São Paulo sempre foi movida pelo progresso a qualquer custo. Jogar lixo no rio sempre foi a solução mais barata”, lamenta Aristides Almeida Rocha, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Do Lendário Anhembi ao Poluído Tietê.
Em 1926, o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito, atendendo a um pedido do prefeito da época, Firmiano Pinto, criou o projeto intitulado Melhoramentos do Rio Tietê. Ele previa a redução da sua extensão de 46 para 26 quilômetros no trecho Guarulhos-Osasco, para aumentar e tornar constante a vazão da água. Também ressaltava a importância de reservar o rio para manancial de abastecimento da população e sugeria a construção de comportas para regularização do fluxo, de dois lagos com 1 milhão de metros quadrados de área junto à Ponte Grande e o represamento dos rios Biritiba, Jundiaí e Taiaçupeba, na altura de Mogi das Cruzes. O projeto era tão avançado que muitas das suas idéias acabaram sendo executadas nas décadas seguintes. Porém, na época em que foram propostas, nenhuma saiu do papel.
O principal entrave ao projeto de Saturnino de Brito levava o nome de uma empresa canadense. “A Light é uma das grandes culpadas pela situação calamitosa em que o Tietê se encontra hoje”, afirma Almeida Rocha. Segundo o professor, quando ela recebeu, em 1899, uma pioneira concessão para explorar os serviços de transportes urbanos na capital paulista, também precisou criar fontes de geração de energia para colocar os bondes em funcionamento. Por isso, solicitou ao governo uma autorização para represar o rio Guarapiranga. Em 1908, seu pedido foi atendido. “Outras concessões foram permitindo à empresa canadense deter o monopólio para gerar e distribuir energia elétrica em São Paulo, São Bernardo do Campo, Santo Amaro (então uma subprefeitura), Guarulhos, Parnaíba, Sorocaba, São Roque, Una (Ibiúna) e Jundiaí”, informa o professor Almeida Rocha em seu livro.
Para manter seu lucrativo monopólio, a Light fazia de tudo para barrar qualquer outra atividade nas águas da região metropolitana que não fosse a geração de energia. Foi por isso que, mesmo tendo se comprometido a estabelecer uma hidrovia para escoamento de mercadorias e produtos através dos rios Tietê, Pinheiros e Grande, o que possibilitaria o acesso fluvial até o alto da serra do Mar, a Light não executou a obra. Foi também por esse motivo que a empresa moveu uma intensa campanha alertando a sociedade para o perigo do uso do Tietê para consumo humano. A propaganda surtiu efeito: a população leiga foi mobilizada e bairros inteiros protestaram contra essa possibilidade. Só que a Light não divulgava o fato de que, naquela época, as técnicas de tratamento já existiam, e diversos especialistas, como o próprio Saturnino de Brito e Teodoro Sampaio, eram contra a idéia da campanha movida pela empresa. “O rio estaria, assim, irremediavelmente condenado a servir à geração de energia e a ser transformado em veículo transportador dos esgotos domésticos e resíduos das indústrias”, aponta o professor Almeida Rocha em sua obra.
Os anos da perversa atuação da Light e de políticas públicas que sempre atenderam aos interesses do capital privado geraram resultados tão danosos que, hoje, 40% do volume total do rio é formado por esgoto. Porém, a situação já foi pior. Desde que as obras de despoluição do rio efetivamente começaram, em 1995, o Tietê e seus afluentes deixaram de receber cerca de 800 milhões de litros de esgoto por dia, o serviço de coleta na região metropolitana aumentou de 70% para 80% e o tratamento, de 24% para 62%. “São ações de grande importância, mas de pequeno impacto para uma cidade de 10 milhões de pessoas”, reflete Luís Eduardo Bevilacqua, gerente da Divisão de Qualidade de Águas da Cetesb.
Essas pequenas melhorias, que ainda não são perceptíveis ao cidadão, foram alcançadas à custa de trabalho duro e muito capital investido. Em nove anos, o rio já consumiu mais de R$ 3,1 bilhões em recursos públicos e privados, divididos entre o Projeto Tietê, da Sabesp, e o Programa de Combate a Enchentes, da Secretaria de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento do governo do estado. Enquanto o primeiro visa criar um sistema de coleta e tratamento de esgoto na região metropolitana de São Paulo, o segundo tem como atividade principal o rebaixamento da calha e a impermeabilização das margens, para aumentar a vazão do rio.
“Essa última iniciativa não teve nenhuma participação da sociedade civil. Além disso, ela não deveria estar desvinculada do projeto de despoluição. Isso confunde a população”, critica Mantovani. Porém, o diretor da SOS Mata Atlântica se diz otimista quanto aos resultados do programa da Sabesp. “O Projeto Tietê está tendo continuidade. A primeira fase consumiu R$ 1,1 bilhão, e o dinheiro foi muito bem gasto.” O jornalista Henrique Nicolini, autor do livro Tietê – O Rio do Esporte, partilha da opinião de Mantovani. “Esta é a primeira vez que um programa de despoluição do rio está sendo feito com seriedade. Ao longo dos anos, muitos outros já foram criados, mas nunca houve vontade política para levá-los adiante”, afirma.
O Projeto Tietê foi dividido pela Sabesp em etapas. A primeira fase, que começou em 1995 e se estendeu até 1998, contou com recursos da própria Sabesp (R$ 550 milhões), do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID (R$ 450 milhões) e da Caixa Econômica Federal (R$ 100 milhões). Nesse período, foram construídas três estações de tratamento de esgotos (ETEs) – São Miguel, Parque Novo Mundo e ABC -, que, juntas, têm capacidade para tratar 7 mil litros de esgoto por segundo, e a ETE Barueri teve sua capacidade ampliada de 7 mil para 9 mil litros por segundo. Além disso, a Sabesp também fechou o cerco às indústrias que jogavam poluentes nos rios.
Durante uma visita dos técnicos do BID ao Brasil, em 1999, o Projeto Tietê ganhou o título de programa de saneamento mais bem gerenciado do mundo. O êxito da primeira fase credenciou o governo do estado a negociar um novo financiamento com o banco, que liberou mais R$ 600 milhões (US$ 200 milhões).
Com outros R$ 600 milhões em recursos investidos pela Sabesp, em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a segunda etapa do programa começou em maio de 2002 e deve estar concluída no final de 2005.
“Agora que as ETEs já têm capacidade para tratar um grande volume de esgoto, estamos dando prioridade à construção de tubulações que liguem as casas às estações de tratamento”, explica Marcelo Rampone, coordenador do Projeto Tietê, da Sabesp. No total, serão feitas 290 mil ligações domiciliares e construídos sob a terra 1,4 mil quilômetros de redes coletoras. Depois de concluídas essas obras, a Sabesp estima que outros 300 milhões de litros de esgoto deixarão de ser despejados nos rios todos os dias. O índice de coleta de esgoto passará de 80% para 84%, e o de tratamento, de 62% para 70%.
Embora não façam parte do projeto de despoluição e visem conter as enchentes na cidade, as obras de aprofundamento da calha do Tietê também estão trazendo benefícios ao velho Anhembi. Até o final de 2005, serão retirados 6 milhões de metros cúbicos de sedimentos e cerca de 110 mil pneus do fundo do rio.
O trabalho, que começou em 1998 e conta com recursos do Japan Bank International Cooperation (JBIC), deve estar pronto no final de 2005. A partir de então, todo o trecho de 41 quilômetros compreendido entre a barragem da Penha, na zona leste da capital, e a Edgard de Sousa, em Santana de Parnaíba, terá sua calha ampliada para uma profundidade mínima de 2,5 metros. Atualmente, cerca de 80% da obra está concluída. Já as margens estão recebendo uma cobertura de concreto, para evitar o assoreamento. “Ou seja, o Tietê apresenta hoje condições de navegabilidade em praticamente toda a região metropolitana de São Paulo”, diz Rui Cláudio Carvalho, do Departamento de Águas e Energia Elétrica, que faz parte da Secretaria de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento do governo do estado.
Os paulistanos já estão usufruindo os benefícios da obra: há mais de dois anos não há enchentes no rio. Já os resultados obtidos pela Sabesp só são percebidos em cidades banhadas pelo Tietê depois de São Paulo. “A extensão em que o rio se encontra morto já sofreu uma redução de 80 quilômetros, e cidades como Porto Feliz, Itu e Salto estão vendo os peixes voltarem às águas”, afirma Rampone. Entretanto, segundo o relatório da Cetesb, a mudança ainda não pode ser estatisticamente comprovada. “Na visão da Cetesb, essa melhora ainda não fica evidente”, contesta Bevilacqua.
Na opinião do coordenador do Projeto Tietê, o maior desafio agora é diminuir o despejo dos dejetos que vêm das casas. “Com a poluição industrial controlada, o esgoto doméstico é o grande vilão da história, pois sua contaminação é muito dispersa”, explica ele. “Se conseguirmos controlá-la, a vida vai voltar ao Tietê.”
Por mais que seja majoritária, a poluição orgânica dos esgotos não é a única presente no Tietê. Cargas difusas, carregadas pelas águas das chuvas, metais pesados e inseticidas também contaminam a água. “O combate a esses poluentes é um trabalho secundário mas importante”, alerta o professor Almeida Rocha.
De acordo com o engenheiro Bevilacqua, a principal preocupação da Cetesb hoje é um componente mineral presente em 85% das amostras coletadas: o fósforo.
Encontrado nos dejetos humanos (urina e fezes) e também nos detergentes em pó, ele acelera um processo biológico conhecido como eutroficação. O aumento do material orgânico lançado nas águas oferece condições para que as cianobactérias (algas azuis) se reproduzam de maneira exagerada. “Isso, além de diminuir a taxa de oxigênio dissolvido, faz com que um reservatório tenha sua vida útil encurtada”, alerta o gerente da Divisão de Qualidade de Águas da Cetesb. Segundo ele, a presença de fósforo tem um outro agravante: o tratamento desse componente é caro e precisa ser feito separadamente.
A Cetesb destaca ainda outros três tipos de poluentes presentes em quantidades significativas no Tietê: os metais pesados (chumbo, cobre, zinco, etc.), lançados na água pelas indústrias, o DDT (tipo de inseticida que hoje tem sua utilização proibida) e os PCBs (substâncias cujo uso também não é mais permitido, mas que estão presentes em transformadores e capacitores fabricados antes da legislação que os baniu, em 1981).
A análise dos sedimentos da bacia do Alto Tietê também aponta contaminação. Uma das substâncias tóxicas presentes é o chumbo tetraetila, utilizado na composição da gasolina na década de 80, e até hoje encontrado no leito do Tietê e de seus afluentes. De acordo com a Cetesb, os dois locais que enfrentam a situação mais crítica são os reservatórios de Pirapora e Rasgão, que recebem toda a carga poluidora da região metropolitana. “Nos outros pontos, a contaminação dos sedimentos merece atenção e precisa ser monitorada, mas não chega a ser alarmante”, garante Bevilacqua.
A despoluição do Tietê é um projeto de longo prazo e, para que seus objetivos sejam alcançados, é necessário o empenho de sucessivas gestões de governo e uma cobrança constante da sociedade. “Também é preciso fazer um amplo trabalho de conscientização da população”, salienta Mário Mantovani.
Para os especialistas, é difícil estimar quando o rio poderá abrigar novamente vida aquática. Marcelo Rampone acredita que ele terá condições para a prática de atividades náuticas e esportivas daqui a dez anos.
“Já posso vislumbrar os barcos de passeio carregados de famílias navegando pelo Tietê”, anima-se Marco Antônio Castello Branco, secretário de Turismo do estado, que, recentemente, convidou um grupo de jornalistas para um passeio de barco pelo rio dentro da capital paulista. “Quero mostrar à sociedade que ele pode ser explorado economicamente”, diz. Mas, para o diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, o Tietê não irá se recuperar: “Nunca mais o teremos para nadar. A despoluição trará apenas mudanças para a qualidade de vida da população, como a diminuição de doenças. Mas o rio sempre estará em uma situação ruim”, diz Mantovani.
Por mais que as perspectivas sobre o futuro do mais importante rio de São Paulo sejam divergentes, uma coisa é certa: ele nunca voltará a ser como antes.
Seus meandros, que foram decepados pelas infindáveis obras de retificação do leito, não voltarão a existir. Suas margens, que estão recebendo cobertura de concreto, não irão mais abrigar a flora dos tempos das bandeiras. “Agora, precisamos entender o rio dentro do contexto urbano de São Paulo, para, aí, sim, pensar em melhorias”, defende o professor Almeida Rocha.
Para o jornalista Nicolini, que por muitos anos cobriu regatas e provas de natação no Tietê para o jornal “Gazeta Esportiva”, presenciar a degradação do Tietê foi um processo lento e dolorido, semelhante a envelhecer.
“Cada dia eu via que ele morria um pouco. Mas o grande impacto ocorreu quando a ‘Gazeta’ suspendeu a travessia de São Paulo a nado, em 1944.” No auge dos seus 78 anos, ele reflete: “A história não volta, fica apenas na memória das pessoas que, como eu, já nadaram no Tietê. Mas, mesmo hoje, retificado, cortando uma cidade como São Paulo, ele pode voltar a ter vida e beleza. E espero viver para ver”.
O Tâmisa, na Inglaterra, hoje um dos cartões-postais de Londres, é a grande prova de que um rio poluído pode voltar a ter vida, mesmo atravessando uma metrópole. Suas águas, que no século 19 exalavam um cheiro tão insuportável que algumas sessões do Parlamento tiveram de ser suspensas, hoje são cenário de pescarias, passeios de barco, prática de esportes e de turismo.
A poluição do Tâmisa vem de longa data. Em 1610, a água deixou de ser potável e, no final do século 19, ele foi declarado morto. Para tentar reverter a situação, o governo construiu em Londres, no início do século 20, um sistema de captação de esgotos e, com isso, o rio se recuperou por alguns anos. No entanto, como os dejetos não eram tratados, mas apenas coletados e lançados mais adiante no próprio curso, o Tâmisa não resistiu por muito tempo e, em 1950, foi novamente declarado morto.
Dessa vez, os ingleses investiram em uma solução definitiva, que custou US$ 20 bilhões, aplicados ao longo de 20 anos. Ainda na década de 1950, foram construídas as primeiras estações de tratamento. O governo também promoveu uma ampla campanha de conscientização da população, para ensinar aos cidadãos que o rio não era lugar de jogar lixo ou esgoto. Na década de 1970, os peixes voltaram a viver no Tâmisa. Hoje, suas águas abrigam 121 espécies diferentes.
O rio atualmente é gerenciado pela Thames21, uma organização composta, entre outros, pela Agência do Meio Ambiente do governo, pela Autoridade do Porto de Londres e por representantes da sociedade civil. A entidade zela pela qualidade da água, aplica o dinheiro arrecadado com impostos em projetos sociais e educacionais ligados ao rio e realiza uma limpeza anual do fundo.
“Mesmo com tanto cuidado, todos os anos ainda são retiradas do leito do Tâmisa cerca de mil toneladas de lixo.”
(Juliana Borges)

09/09/2010
Paulenir Constâncio
Dados da Organização das Nações Unidas constatam que mais da metade da população mundial está nas cidades e já é responsável pelo consumo de 70% de todos os recursos que o homem retira da natureza. Até 2050, com a estimativa de que a população do planeta supere 9,2 bilhões, a Terra terá 6 bilhões de habitantes, quase 90% da população atual, vivendo no espaço urbano. Diante desses números, governos estaduais, prefeituras e comunidades precisam reconhecer o valor do capital natural (água, solo, biodiversidade). Os formuladores de políticas públicas têm razões de sobra para tentar encontrar, o mais rápido possível, soluções de combate à degradação dos ecossistemas e minimização da perda da biodiversidade.
O alerta está no relatório “A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade para Políticas Locais e Regionais (TEEB, sigla em inglês)”, lançado no Brasil, em workshop realizado nesta quinta-feira (09/09) em Curitiba (PR) e simultaneamente na Bélgica, Índia, Japão e na África do Sul. Nele, 140 especialistas das áreas de ciência, economia e política de mais de 40 países concluíram que os serviços ambientais podem impulsionar as economias locais, gerar milhões de novos empregos e melhorar a qualidade de vida nas cidades.