Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal recebe 69 projetos

22/09/2010

A primeira rodada de apoio a projetos lançada pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal (FNDF), gerido pelo Serviço Florestal Brasileiro, recebeu 69 propostas voltadas à capacitação e assistência técnica para manejo florestal na Amazônia e Caatinga e restauração na Mata Atlântica – áreas contempladas nesta seleção.

“Considerando que o Fundo é novo e a forma como iniciamos sua operação – com oferecimento de serviços, e não com o repasse de recursos -, ficamos satisfeitos com o número de projetos que chegaram”, diz o coordenador do FNDF, João Paulo Sotero. A tendência, diz ele, é que a quantidade de propostas aumente à medida que o Fundo ficar mais conhecido e disponibilizar mais recursos. Para esta chamada, há R$ 2,2 milhões disponíveis.

A maior parte das submissões – em torno de 70% – foi apresentada por entidades sem fins lucrativos, como associações, cooperativas e organizações não governamentais. O restante veio de prefeituras e instituições estaduais e federais do governo. Houve demandas de cinco dos seis estados da região Norte.

Seleção – Durante os próximos dias, a Comissão de Seleção do FNDF, formada por 17 integrantes, vai analisar os projetos. A avaliação envolve principalmente o grau de maturidade das organizações para o desenvolvimento da atividade para a qual solicita capacitação ou assistência. O resultado sai no dia 8 de outubro.

Segundo João Paulo Sotero, o número de propostas apoiadas vai depender dos recursos necessários para atender àquelas mais bem classificadas. Ou seja, de quantas iniciativas será possível atender com os R$ 2,2 milhões do Fundo.

A expectativa é de que os moradores de reservas extrativistas (resex) no Norte, os assentados da reforma agrária no Piauí e os produtores de mudas e sementes de espécies da Mata Atlântica no Nordeste – público-alvo das quatro áreas que compuseram as chamadas do FNDF – recebam a assistência ainda este ano.

Preservação – De acordo com o gerente de Fomento do Serviço Florestal, Marco Conde, o apoio do FNDF à realização do manejo florestal em resex e assentamentos vai colaborar para que a permanência destas populações na floresta e o uso dos recursos florestais ocorra conjuntamente com a geração de renda e o atendimento aos mercados. “Os recursos vão ajudar essas pessoas a permanecer em áreas naturais com a proteção desse patrimônio”, afirma Conde.

Já o auxílio para a produção de mudas e sementes vai melhorar as condições para restauração da Mata Atlântica. “Há dificuldades, para quem retirou a floresta e agora tem que recuperar a vegetação, em conseguir sementes e mudas em quantidade, qualidade e diversidade de espécies necessárias para fazer a restauração florestal”, afirma o gerente. “É um mercado ainda restrito que estamos ajudando a atender.”

Início – Para viabilizar o início do apoio até dezembro, o Serviço Florestal realizará, logo após a divulgação dos vencedores, a licitação para escolher as empresas que prestarão os serviços previstos nas primeiras chamadas do FNDF.

O Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal foi instituído pela Lei de Gestão de Florestas Públicas (11.284/2006) e regulamentado em maio deste ano com a publicação do Decreto Nº 7.167/2010. Sua principal fonte de recursos é a arrecadação com as concessões florestais, mas já neste ano conta com o apoio de parceiros, como o Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), cujo Conselho Deliberativo aprovou o repasse de R$ 500 mil que integrarão os R$ 2,2 milhões para uso ainda neste ano.
ASCOM

“Tietê,
1100 km de extensão,
77000 km2 de terras drenadas por sua bacia,
1/3 (quase um terço) da área total do Estado de São Paulo
204 municípios ligados por sua bacia.
Ele é sem dúvida o maior patrimônio do nosso Estado”

O Movimento de Defesa do Rio Tietê, é uma das entidades
ambientais mais antigas do Estado de São Paulo e talvez do Brasil…

Conheça o que a ONG vem desenvolvendo, diversos projetos e
parcerias visando a recuperação da Fauna, Flora e Educação Ambiental:

Projeto Educando Sobre as Águas

Iniciando o ano de 1999 com o objetivo de inteirar os alunos da rede pública de ensino, sobre a importância do Rio Tietê na história do nosso estado e do nosso país. Serviu como estrada natural para os Bandeirantes do qual se utilizaram para a colonização, inclusive de todo oeste brasileiro, contribuindo para a expansão geográfica do país com a quebra do “Tratado de Tordesilhas”. O referido projeto vem promovendo o interesse pela ecologia e conhecimento sobre a hidrovia do Mercosul, despertando nos alunos uma consciência abrangente sobre os problemas de poluição que vivemos atualmente, e mais importante que isso, transformando as viagens pelo rio em verdadeiras aulas sobre desenvolvimento, conscientização e cidadania. Logo quando foi iniciado o projeto, conseguimos com que mais de cinco mil alunos da cidade de Barra Bonita estivessem participando do mesmo com resultados extremamente positivo. Dando continuidade ao projeto estaremos abrindo a todas as cidades do Estado de São Paulo, tendo em vista a reciprocidade por parte de Delegados de Ensino, Diretores e Professores de escola da rede pública e particular e, principalmente pelos pais e alunos que participaram do projeto.

Parque Ecológico Orlando Ometto.

Tem o objetivo principal de promover noções básicas de ecologia, preservação do meio ambiente despertando no jovem e na população o interesse pela preservação da natureza e a melhoria da qualidade de vida. A infra-estrutura a ser executada será o mínimo necessário para receber os visitantes como: cercar toda a área dificultado o acesso de pessoas não autorizadas, construção de uma capela de São Francisco de Assis (Santo da ecologia), secretaria com sala de aula, banheiros e estacionamento, tudo visando a preservação do meio ambiente.

Criação da unidade de Conservação da Piataraca

Metas do projeto: transformar a área de 267,5 hectare de potencial e relevância ambiental, hoje muito impactada numa unidade de conservação, que vislumbra além dos aspectos ecológicos a criação de oportunidades para a conscientização ambiental e de negócios para a região, através de:
Reflorestamento com espécies nativas;
Visitas monitoradas;
Cursos de campo para visualização da ave-fauna;
Curso para formação de guias de turismo ecológico;
Museu do café;
Criação do museu da cerâmica (telhas, tijolos e pisos);
Criação do pavilhão de exposição com produtos típicos da região;
Criação do Marreco de Pequim;
Criar alternativa econômica e viabilizar recursos obrigatórios para recuperação ambiental num momento de crise ambiental.

Projeto para colocação de Barreiras próximo a capital

Negociação com o governo do Estado para colocação de barreiras (telas) próximo à jusante da capital, para contenção de toneladas de lixo flutuante que vem invadindo o interior do estado através do rio, atrapalhando significamente o desenvolvimento sócio-econômico das cidades situadas em suas margens e contribuindo para degradação ambiental e problemas de saúde pública, pedido este que tem razões lógicas uma vez que este lixo antes de chegar ao interior passa por duas barragens do próprio governo (Edgar de Souza e Salto), e uma vez recolhido nestes pontos beneficiaria os outros quase oitenta municípios que se localizam abaixo.

Termo de Cooperação Técnica com a Fatec de Jaú

Firmado entre a Faculdade de Tecnologia de Jaú e a ONG Mãe Natureza que tem por objetivo o desenvolvimento de 03 projetos de concepção naval para uso nas bacias dos rios: Tietê, Paraná e seus afluentes.
1- Uma embarcação para remoção de detritos flutuantes e plantas aquáticas da superfície, prevendo algum sistema de armazenamento e reciclagem do material retido.
2- Uma embarcação que deverá atender alunos universitários nas mais diversas questões ambientais; hidrologia, geologia, batiometria, biologia, sedimentação, entre outros.
3- Embarcação que servirá como escritório técnico da entidade dotada de auditório, videoteca, biblioteca e salas de estudo que deverá percorrer e atender toda rede de ensino dos municípios que compõem a bacia hidrográfica.

Fundação do Memorial do Rio Tietê

Com o apoio da Secretaria do Estado dos Transportes, Marinha do Brasil, AES – Tietê (antiga CESP) e Prefeitura Municipal da Estância Turística de Barra Bonita, o Memorial do Rio Tietê foi fundado no dia 08 de junho de 2000 e conta com um acervo rico em informações, utilizando-se de recursos áudio visuais, esculturas, plotters, fauna e flora, documentos, fotos e vasta biblioteca sobre o rio.

Nossa homenagem a esse exemplo de brasileiro, HÉLIO PALMESAN,
que por mais de 30 anos vem lutando pelo sonho de fazer do nosso Tietê
um rio totalmente vivo.

A Meditação Sobre o Rio Tietê

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
-Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar…
É noite. E tudo é noite. Deixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite e tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O óleo das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranhas – céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cântico, em prazeres, em trabalho e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade… É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentra na terra dos homens,
Onde me queres levar?…
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!…

Já nada me amarga mais a recusa da vitória
Do indivíduo, e de me sentir feliz em mim.
Eu mesmo desisti dessa felicidade deslumbrante,
E fui por tuas águas levado,
A me reconciliar com a dor humana pertinaz,
E a me purificar no baro dos sofrimentos dos homens.
Eu me decido. E eu mesmo me reconstituí árduo na dor
Por minhas mãos, por minhas desvividas mãos, por
Estas minhas próprias mãos que me traem,
Me desgastaram e me dispersaram por todos os descaminhos,
Fazendo de mim uma trama onde a aranha insaciada
Se perdeu em cisco e pólem, cadáveres e verdades e ilusões.

Mas porém, o rio, de cujas águas eu nasci,
Eu nem tenho o direito mais de ser melâncólico e frágil,
Nem de me estrelar nas volúpias inúteis da lágrima!
Eu me reverto ás tuas águas espessas de infâmias,
Oliosas, eu, voluntariamente, sofregamente, sujado
De infâmias, egoísmos e traições. E as minhas vozes,
Perdidas do seu tenor, rosman pesadas e oliosas,
Varando terra adentro no espanto dos mil futuros,
À espera angustiada do ponto. Não do meu ponto final!
Eu desisti! Mas do ponto entre as águas e a noite,
Daquele ponto leal à terrestre pergunta do homem,
De que o homem há de nascer.

Eu vejo; não é por mim, o meu verso tomando
As cordas oscilantes da serpente, rio.
Toda a graça, todo o prazer da vida se acabou.
Nas tuas águas eu contemplo o Boi Paciência
Se afogando, que o peito das águas tudo soverteu.
Contágios, tradições, brancuras e notícias,
Mudo, esquivo, dentro da noite, o peito das águas,
Fechado, mudo
Mudo e vivo, do despeito estríbulo que me fustiga e devora.
Destino, predestinações… meu destino. Estas águas
Do meu Tietê são abjetas e barrentas,
Dão febre, dão morte decerto, e dão garças e antíteses.
Nem as ondas das suas praias cantam, e no fundo
Das manhãs elas dão gargalhadas frenéticas,
Silvos de tocaias e lamurientos jacarés.
Isto não são águas que se beba, conhecido, isto são
Águas do vício da terra. Os jaburus e os socós
Gargalham depois morrem. E as antas e os bandeirantes e os ingás,
Depois morrem. Sobra não. Nem siquer o Boi Paciência
Se muda não. Vai tudo ficar na mesma. mas vai!… e os corpos
Podres envenenam estas águas completas no bem e no mal.
Isto não são águas que se beba, conhecido! Estas águas
São malditas e dão morte, eu descobri! E é por isso
Que elas se afastam dos oceanos e induzem à terra dos homens,
Paspalhonas. Isto não água que se beba, eu descobri!
E o meu peito das águas se esborrifa, ventarrão vem, se encapela
Engruvinhado de dor que não se suporta mais.
Me sinto pai do Tietê! Ôh força dos meus sovacos!
Cio de amor que me impede, que destrói e fecunda!
Nordeste de impaciente amor sem metáforas,
Que se horroriza e enraivece de sentir-se
Demagogicamente tão sozinho! Ô força!
Incêndio de amor estrondante, enchente magnânima que me inunda,
Me alarma e me destroça, inerte por sentir-me
Demagogicamente tão só!

A culpa é tua, Pai Tietê? A culpa é tua
Si as tuas águas estão podres de fel
E majestade falsa? A culpa é tua
Onde estão os amigos? Onde estão os inimigos?
Onde estão os pardais? E os teus estudiosos e sábios, e
Os iletrados?
Onde o teu povo? E as mulheres! Dona Hircenuhdis Quiroga!
E os Prados e os crespos e os pratos e
Os barbas e os gatos e os línguas
Do Instituto Histórico e Geográfico, e os museus e a Cúria,
E os senhores chantres reverendíssimos,
Celso niil estate varíolas gide memoriam,
Calípedes flogísticos e a Confraria Brasiliense e Clima
E os jornalistas e os trustkistas e a Ligth e as
Novas ruas abertas e a falta de habitações e
Os mercados?… E a tiradeira divina de Cristo!…
Tú és Demagogia. A própria vida abstrata tem vergonha
De ti em tua ambição fumarenta.
És demagogia em teu coração insubmisso.
És demagogia em seu desequilíbio anticéptico
E antiuniversitário.
És demagogia. Pura demagogia.
Demagogia pura. Mesmo alimpada de metáforas.
Mesmo irrespirável de furor na fala reles:
Demagogia.
Tú és enquanto tudo é etermidade e malvasia:
Demagogia.
Tú és em meio à (crase) gente pia:
Demagogia.
És tú jocoso enquanto o ato gratuito se esvazia:
Demagogia.
És demagogia, ninguém chegue perto!
Nem Alberto, nem Adalberto, nem Dagoberto
Esperto Ciumento Peripatético e Ceci
E Tancredo e Afrodísio e também Armida
E o próprio Pedro e também Alcibíades,
Ninguém te chegue perto, porque tenhamos o pudor,
O pudor do pudor, sejamos verticais e sutis, bem
Sutis!… E as tuas mãos se emaranham lerdas,
E o Pai Tietê se vai num suspiro educado e sereno,
Porque és demagogia e tudo é demagogia.
Olha os peixes, demagogo incivil! Repete os carcomidos peixes!
São eles que empuram as águas e as fazem servir de alimento
Ás areias gordas da margem. Olha o peixe dourado sonoro,
Esse é um presidente, mantém faixa de crachá no peito,
acirculado de tubarões que escondem na fuça rotunda
O perrepismo dos dentes, se revezam na rota solene
Languidamente presidenciais. Ei-vem o tubarão – martelo
E o lambari – spitfire. Ei-vem o boto – ministro.
Ei-vem o peixe – boi com a mil mamicas imprudentes,
Pertubado pelos golfinhos saltitantes e as tabaranas
Em zás – trás dos guapos Pêdêcê e Guaporés.
Eis o peixe – baleia entre os peixes muçuns lineares,
E os bagres do lodo oliva e bilhões de peixinhos japoneses;
Mas és asnático o peixe – baleia e vai logo encalhar na margem,
Pois quis engolir a própria margem, confundido pela facheada,
Peixes ao mil e mil, como se diz, brincabrincando
De dirigir a corrente com ares de salva – vidas.
E lá vem por debaixo e por de – banda os interrogativos peixes
Internacionais, uns rubicudos sustentados de moscas,
E os espadartes a trote chique, esses são espadartes! e as duas
Semanas Santas se insultam e odeiam, na lufa – lufa de ganhar
No bicho o corpo do crucificado. Mas as àguas,
As águas choram baixas num murmúrio lívido, e se difundem
Tecidas de peixe e abandonado na mais incompetente solidão.
Vamos, emagogia! Eia! Sus! Aceita o ventre e investe!
Berra de amor humano impenitente,
Cega, sem lágrimas, ignara, colérica, investe!
Um dia hás de ter razão contra a ciência e a realidade,
E contra os fariseus e as lontras luzidias.
E contra os guarás e os elogios. E contra todos os peixes.
E também os mariscos, as ostras e os trairões fartos de equilíbrio
Pundhonor.
Pum d’honor.
Qué – de as juvenilidades Auriverdes!
Eu tenho medo… Meu coração está pequeno, é tanta
Essa demagogia, é tamanha,
Que eu tenho medo de abraçar os inimigos,
Em busca apenas dum sabor,
Em busca de um olhar,
Um sabor, um olhar, uma certeza…
É noite…Rio! Meu rio! Meu Tietê!
É noite muito!… As formas… Eu busco em vão as formas
Que me ancorem num porto seguro na terra dos homens.
É noite e tudo é noite. o rio tristemente
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
Água noturna, noite líquida… Augúrios mornos afogam
As altas torres do meu exausto coaração.
Me sinto esvair no apago murmulho das águas
Meu pensamento quer pensar, flor, meu peito
Quereria sofrer, talvéz (sem metáforas) uma dor irritada…
Mas tudo se desfaz num choro de agonia
Plácida. Não tem formas essa noite, e o rio
Recolhe mais esta luz, vibra, reflete, se aclara, refulge,
e me larga desarmado nos transes da enorme cidade

Si todos dinossauros imponentes de luxo e diamante,
Vorazes de genealidade e de arcanos,
Quisessem reconquistar o passado…
Eu me vejo sozinho, arrastando sem músculo
a caudado pavão e mil olhos de séculos,
Sobretudo os vinte séculos de anticristianismo
Da por todos chamada Civilização Cristã…

Olhos que me intrigam, olhos que me denunciam,
Da cauda do pavão, tão pesada e ilusória.
Não posso continuar mais, não tenho, porque os homens
Não querem me ajudar no meu caminho.
Então a cauda se abriria orgulhosa e reflorescente
De luzes inimagináveis e certezas…
Eu não seria tão somente o peso deste meu desconsolo,
A lepra do meu castigo queimando neste meu epiderme
Que encurta, me encerra e me inutiliza na noite,
Me revertendo minúsculo à advertência do meu rio.
Escutoi o rio. Assunto estes balouços em que o rio
Murmura num banzeiro. E contemplo
Como apenas se movimenta escravizada a torrente,
E rola a multidão. Cada onda que abrolha
E se mistura no rolar fatigado é uma dor. E o surto
Mirim dum crime impune.
Vêm de trás o estirão. É tão soluçante e tão logo,
E lá nacurva do rio vêm outros estirões e mais outros,
E lá na frente são outros, todos soluçantes e presos
Por curvas que serão sempre apenas as curvas do rio.
Há de todos os assombros, de todas as purezas e martírios
Nesse rolo torvo das águas. Meu Deus! Meu
Rio! Como é possível a torpeza da enchente dos homens!
Quem pode compreender o escravo macho
E multimilenar que escorre e sofre, e mandado escorre
Entre injustiça e impiedade, estreitado
Nas margnes e nas areias das praias sequiosas?
Elas bebem e bebem. Não se fartam, deixando com desespero
Que o rosto do galé aquoso ultrapasse esse dia,
Pra ser represado e bebido pelas outras areias
Das praias adiante, que também dominam, aprisionam e mandam
A trágica sina do rolo das águas, e dirigem
O leito impassível da injustiça e da impiedade.
Ondas, a multidão, o rebanho, o rio, meu rio, um rio
Que sobe! Fervilha e sobe! E se adentra fatalizado, e em vez
De ir se alastrar pela terra escura e ávida dos homens,
Dando sangue e vida a beber. E a massa líquida
Da multidão onde tudo se esmigalha e se iguala,
Rola pesada e oliosa, e rola num rumor surdo,
E rola mansa, amansa imensa eterna, mas
No eterno imenso rígido canal da estulta dor.

Porque os homens não me escutam! Por que os governadores
Não me escutam? Por que não me escutam
Os plutocratas e todos os que são chefes e são fezes?
Todos os donos da vida?
Eu lhes daria o impossível e lhes daria os segredo,
Eu lhes dava tudo aquilo que fica para cá do grito
Metálico do números, e tudo
O que está além de insinuação cruenta da posse.
E si acaso eles protrestassem, que não! Que não desejam
A borboleta translúcida da humana vida, porque preferem
O retrato a ólio das inaugurações espontâneas,
Com béstias de operário e do oficial, imediatamente inferior.
E palminhas, e mais os sorrisos das máscaras e a profunda comoção,
Pois não! Melhor que isso eu lhes dava uma felicidade deslumbrante
De que eu consegui me despojar porque tudo sacrifiquei.
Sejamos generosíssimos. E enquanto os chefes e as fezes
De mamadeira ficassem na creche de laca e lacinhos,
Ingênuos brincando de felicidade deslumbrante:
Nós nos iríamos de camisa aberta ao peito,
Descendo verdadeiros ao léu da corrente do rio,
Entrando na terra dos homens ao coro das quatro estações.

Pois que mais uma vez eu me aniquilo sem reserva,
E me estilhaço nas fagulhas eternamente esquecidas,
E me salvo no eternamente esquecido fogo de amor…
Eu estalo de amor e sou só amor arrebatado
Ao fogo irrefletido do amor.
…eu já amei sozinho comigo; eu já cultivei também
O amor do amor, Maria!
E a carne plena da amante, e o susto vário
Da amiga, e a inconfidência do amigo… Eu já amei
Contigo, Irmão Pequeno, no exilio da preguiça elevada, escolhido
Pelas águas do túrbido rio do Amazonas, meu outro sinal.
E também, ôh também! Na mais impávida glória
Descobridora da minha inconstância e aventura,
Desque me fiz poeta e fui trezentos, eu amei
Todos os homens, odiei a guerra, salvei a paz!
E eu não sabia! Eu bailo de ignorâncias inventivas,
E a minha sabedoria vem das fontes que eu não sei!
Quem move meu braço? Quem beija por minha boca?
Quem sofre e se gasta pelo meu renascido coração?
Quem? Sinão o incêndio nascituro do amor?…
Eu me sinto grimpado no arco da Ponte das Bandeiras,
Bardo mestiço, e o meu verso vence a corda
Da caninana sagrada, e afina com os ventos dos ares, e enrouquece
Úmido nas espumas da água do meu rio,
e se espatifa nas dedilhações brutas do incorpóreo Amor.
Por que os donos da vida não me escutam?
Eu só sei que eu não sei por mimi! Sabem por mim as fontes
Da água, e eu bailo de ignorâncias inventivas.

Meu baile é solto como a dor que range, meu
Baile é tão vário que possui mil sambas insonhados!
Eu converteria o humano crime num baile mais denso
Que estas ondas negras de água pesada e oliosa,
Porque os meus gestos e os meus ritmos nascem
Do incêndio puro do amor… Repetição. Primeira voz sabida, o Verb
Primeiro troco. Primeiro dinheiro vendido. Repetição logo ignorada
Como é possível que o amor se mostre impotente assim
ante o ouro pelo qual o sacrificam os homens,
Trocando a primavera que brinca na face das terras
Pelo outro tesouro que dorme no fundo baboso do rio!
É noite! É noite! E tudo é noite! E os meus olhos são noite!
Eu não enxergo siquer as barcaças na noite.
Só a enorme cidade me chama e pulveriza,
E me disfarça numa queixa flébil e comedida,
Onde irei encontrar a malícia do Boi Paciência
Redivivo. Flor. Meu suspiro ferido se agarra,
Não quer sair, enche o peito de ardência ardilosa,
Abre o olhar, e o meu olhar procura, flor, um tilintar
Nos ares, nas luzes longe, no peito das águas,
No reflexo baixo das nuvens.
São formas … Formas que fogem, formas
Indevisas, se atropelando, um tilintar de formas fugidas
Que mal se abrem, flor, se fecham, flor, flor, informes inacessíveis.

Na noite. E tudo é noite. Rio, o que eu posso fazer!…
Rio, meu rio… mas porém há – de haver com certeza
Da serra! E hei – de guardar silêncio
Deste amor mais perfeito do que os homens?…
Estou pequeno, inútil, bicho da terra, derrotado.
No entanto eu sou maior… Eu sinto uma grandeza infatigável!
Eu sou maior que os vermes e todos os animais.
E todos os vegetais. E os vulcões vivos e os oceanos,
Maior… Maior que a multidão do rio acorrentado,
Maior que a estrela, maior que os adjetivos,
Sou homem! Vencedor das mortes, bem nascido além dos dias,
Transfigurado além das profecias!
Eu recuso a paciência, o boi morreu, eu recuso a esperança.
Eu me acho tão cansado em meu furor.
As águas apenas murmuram hostis, água vil mas turronas paulista
Que sobe e se espraia, levando as auroras represadas
Para o peito dsos sofrimentos dos homens.
… e tudo é noite. Sob o arco admirável
Da Ponte das Bandeiras, morta, dissoluta, fraca,
Uma lágrima apenas, uma lágrima,
Eu sigo alga escusa nas águas do meu Tietê.

Mário de Andrade iniciou o poema em 30 de novembro de 1944 e finalizou-o em 12 de fevereiro de 1945, treze dias antes de sua morte.

A História de um Rio de São Paulo

Pense em São Paulo mais de quatrocentos anos atrás. Sim, isso mesmo: imagine a cidade logo depois de sua fundação, em 1554. Pouca coisa, não é? Apenas uma “casinha de torrão e palha” com “quatorze passos de comprimento e doze de largura” o colégio de Piratininga, fundado pelo padre jesuíta José de Anchieta, “para servir de escola, enfermaria, dormitório, refeitório, cozinha e despensa”.
O local era estratégico. No dorso da colina, onde fica hoje a região da praça da Sé, protegia-se à oeste dos mistérios da floresta sombria e à leste contra ataques indígenas e de corsários, com as encostas da cordilheira marítima servindo de barricada. Dali, divisava-se o maior dos cursos d’água, o sinuoso Anhambi (Tietê), que corria de costas para o mar. Região farta, ali se pescava em abundância, tanto nas águas do Piratininga (mais tarde Tamanduatei), como no leito caudaloso do Tietê.
Na verdade, o primeiro núcleo fundado próximo às suas margens foi São Paulo. Depois, surgem outros aldeamentos indígenas, organizados pelos jesuítas, como Guarulhos, Itaquaquecetuba, São Miguel, Mogi das Cruzes, Freguesia do Ó, Santana de Parnaíba, Porto Feliz. Na época, os índios usavam o rio como meio de transpor-te (em canoas feitas de casca de grandes árvores), como meio de subsistência (pesca) e, naturalmente, para divertimento. Nada mais justo, portanto, que eles o denominassem de rio verdadeiro. Ou seja, (T) i = água e etê = verdadeiro.
O Tietê é também um rio diferente. Nasce na serra do Mar, no município de Salesópolis, pertinho (22 km’) das praias do Atlântico. Ao contrário de outros cursos d’água, ele se volta para o interior de São Paulo, num percurso de 1.150 km da nascente até chegar ao rio Paraná, na divisa com Mato Grosso do Sul. Por isso, foi intensa a sua utilização como meio de transporte, principalmente com as monções – expedições migratórias após a descoberta de ouro em Mato Grosso e a fundação de Cuiabá, em 1718. Foi em suas margens que surgiu também, alguns anos depois, o desenvolvimento de uma cultura até então modesta: a do café. Sua mais remota referência é de 1788: ao lado do Tietê frutificara o primeiro cafezal. Então, o futuro marechal José Arouche colhia café em sua chácara da Casa Verde, suficiente para o consumo da família.
São Paulo crescia lentamente. Em 1860, era ainda um emaranhado de ruas de terra batida, tortuosas, cheias de pequenas casas de pau-a-pique. População: pouco mais de 20 mil habitantes. O movimento comercial era pequeno e nada de indústria. Os mais ricos moravam nas ruas do Rosário, Direita e São Bento, que formavam a área do triângulo paulistano. “Casas que parecem feitas depois do mundo, tanto são pretas; ruas que parecem feitas antes do mundo, tão desertas”, constatou o poeta baiano Castro Alves, então estudante na Academia de Direito do largo de São Francisco.Tudo era próximo. Para alcançar “locais distantes”, como o Brás, Penha (a leste) ou Santo Amaro (ao sul), alugava-se um carro de bois. “Eram tão poucas as carruagens que os cidadãos acorriam às janelas para identificar o possuidor de alguma que passasse”, anotou Antonio de Paula Ramos Jr., também estudante de Direito.
Mas cinco anos depois, em 1865, surgia o primeiro sistema regular de transportes. No começo de agosto, o italiano Donato Severino publicou nos jornais o seguinte anúncio: “Progresso – O abaixo-assinado participa ao público que no dia 21 deste mês em diante tem carros e tilburis para aluguel, estacionados no largo da Sé, onde podem ser procurados para qualquer serviço”.
O avanço do café pelo oeste paulista traz riquezas para a então província de São Paulo e, em 1866, o seu presidente João Alfredo Correia de Oliveira defende a drenagem das várzeas do Tietê e Tamanduateí.
Um ano depois, em 1867, inaugurava-se a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí. “Percebo muitos melhoramentos”, assinalou Hadfield, viajante inglês que visitara São Paulo em 1868. “A própria cidade, bem como as ruas, estão notavelmente limpas. As estradas, nas imediações que eram anteriormente brejos, foram aterradas e estão agora em muito boa ordem”. Em 1889, proclama-se a República e a última década do século passado foi fundamental para São Paulo começar a perder seu caráter rural e ganhar contornos citadinos.
À época, as transformações da economia paulista foram profundas: abolida a escravidão em 1888, as alternativas para os negócios tinham sido ampliadas, em detrimento dos investimentos feitos em mão-de-obra escrava ou mesmo nas ações das companhias de estradas de ferro. Surgem assim novos investimentos, industriais e imobiliários. Mas o perigo ronda a cidade: uma epidemia de febre amarela. O clamor público pelo saneamento de São Paulo será impulsionador de inúmeras obras no Tietê.
Em 1899, quando a The São Paulo Tramway, Light & Power Co. Ltd. se estabeleceu em São Paulo, seus dirigentes canadenses sabiam de sua importância como pólo desenvolvimentista. Em História da Light – Primeiros 50 anos (Eletropaulo, 1989), Edgard de Souza (primeiro brasileiro a chegar à alta direção da Light) anotou a seguinte observação de Auguste de Saint Hilaire, membro da Academia de Ciências do Instituto de França, que viajou por São Paulo em 1819. “O Brasil deve permanecer ainda como país simplesmente agrícola e não chegou a época em que lhe pode ser vantajoso estabelecer manufaturas; entretanto, quando for o momento para isso, é em São Paulo que tais empreendimentos devem ser iniciados”. No ano de fundação da Light, São Paulo iá contava com cerca de 238.500 habitantes e a empresa ganhava a concessão do transporte urbano e energia elétrica.
Primeiras providências: em 7 de maio de 1900 aí trafegavam os primeiros bondes elétricos e, em 23 de setembro de 1901, é inaugurada a usina hidrelétrica de Parnaíba no rio Tietê, a primeira da Light no país – um passo decisivo para estender suas linhas de bondes e fornecer energia. São Paulo, neste ano, possui 108 indústrias: 70 estrangeiras e 38 brasileiras. Nas primeiras décadas do século, São Paulo cresceu muito.
Em 1920, no censo industrial, já aparece como o primeiro centro fabril do país. No realizado em 1905, ainda figurava o Rio de Janeiro como detentor do maior parque industrial. A cidade já havia transposto a várzea do Carmo e alcançava a várzea do Tietê, ao norte. Nos bairros do Brás, Pari, Barra Funda, Água Branca e Lapa estabeleceram-se algumas indústrias. Grupos da população operária já viviam, no seu dia-a-dia, o ritmo do rio em época das chuvas: as grandes enchentes, como em 1906 e 1929.
Em fase de calmaria, no entanto, suas margens viravam festa: partidas de futebol, românticas serenatas, piqueniques. Suas águas eram palco de esportes náuticos e pescarias. “Em 1923, conquistei medalha de remo na modalidade canoa 4X1000 m, disputada no rio Tietê”, conta Carlos Simon Poyares, 86 anos, ex-funcionário da Light. “As competições esportivas me fascinavam quando rapaz. Era sócio do Clube de Regatas Tietê e estava sempre metido em provas de remo e natação. Bons tempos”.
Em 1945, quando Mário de Andrade terminou o poema “A meditação sobre o Tietê”, o rio (denominado pelos índios também como Anhambi ou Anhembi e pelos primeiros colonos portugueses como rio Grande de Anhambi) apresentava “água pesada e oliosa”. Eram os primeiros sinais da desenfreada poluição das suas águas, sobretudo no trecho que cruza a área metropolitana de São Paulo. Anos antes, em 10 de janeiro de 1940, tinha sido criada a primeira legislação específica no Brasil contra a poluição das águas, o decreto 10.890. Chegou mesmo a ser constituída uma Comissão de Investigação das Águas no Estado de São Paulo. Nada disso impediu a morte do Tietê.
A poluição do Tietê é o resultado da desorganização e da irresponsabilidade que acompanhou a industrialização moderna, tanto na Europa como no Brasil. Rio de integração paulista, o Tietê passou, principalmente a partir de 1930, a servir de esgoto industrial e urbano. Segundo alguns especialistas, “além disso, graças a uma sugestão infeliz do então prefeito Ademar de Barros – que em 1955 interligou toda a rede de esgotos de São Paulo –, os dejetos de toda a indústria paulista passaram a terminar no Tietê”.
No começo dos anos 80, ele transformara-se num rio imundo e malcheiroso na região onde viviam dez milhões de pessoas e funcionavam cerca de 30 mil fábricas. Seu curso, já sem nenhuma transparência e sempre coberto por uma película oleosa, era um mundo morto, a não ser pela grande variedade de microorganismos perigosos que proliferam nesse meio. Para se ter uma idéia, anualmente são retirados dos rios Tietê e Pinheiros 5 milhões de metros cúbicos de sedimentos, lixos e efluentes de esgotos industrial e doméstico, o que equivale a 850 mil caminhões lotados. Se colocados em fila cobririam cinco vezes a distância entre São Paulo – Brasília.
Em 1962, a Comissão Especial para o Programa de Despoluição do Rio Tietê, do governo do Estado de São Paulo, apresentou o seguinte relatório das suas águas, da nascente à região metropolitana. Acompanhe:
“A Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo) recolheu no mesmo dia amostras de água do rio Tietê em diversos pontos. Próximo à nascente, ela aparece em estado natural, com baixa turbidez. Sua coloração varia de amarelada à verde, dependendo da estação.
Ao se aproximar de Mogi das Cruzes, aparece baixa contaminação de coliformes fecais, indicando presença de esgotos domésticos. Tem ainda 5,4 miligramas por litro de oxigênio dissolvido, o que a classifica ainda como boa.
Na região do Jardim Nova Cumbica, entre São Paulo e Guarulhos, já aparece na amostra grandes quantidades de efluentes domésticos e industriais. Neste ponto, o Tietê já é classificado como morto. As águas são impróprias até para tratamento convencional. Neste ponto, apresentam 1 miligrama por litro de oxigênio e 70 mil bactérias a cada 100 mililitros, com 200 miligramas por litro de resíduos.
A partir daí, os dados são trágicos. Nas proximidades da ponte dos Remédios, depois de receber as descargas do rio Tamanduateí, a situação é a seguinte: 0,1 miligrama por litro de oxigênio dissolvido, 384 miligramas por litro de resíduos e 4 milhões e 800 mil bactérias a cada 100 mililitros. Classificação: imprópria.
Perto da barragem Edgard de Souza aparece a condição resultante das contribuições dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. A amostra indica presença de 1 milhão e 800 mil bactérias por 100 mililitros de água, 413 miligramas por litro de resíduos e 2,6 miligramas por litro de oxigênio dissolvido.
As águas do rio Tamanduateí são responsáveis pela degradação do Tietê, após a ponte das Bandeiras. Neste trecho, não existe oxigênio (zero miligramas por litro), 16 milhões de bactérias a cada 100 mililitros e 483 miligramas de resíduo por litro”.
O que fazer?

Uma historinha moderna: em 1983, o mecânico londrino Russell Doig jogou o anzol nas águas do Tâmisa, o mais importante rio da Inglaterra, e logo tirou um salmão de quase três quilos. Era uma competição de pesca e, por isso, recebeu uma quantia em dinheiro e uma taça. Motivo da premiação: o salmão, um dos peixes mais exigentes em matéria de água limpa, tinha sumido do Tâmisa há exatamente um século, e o seu retorno era a prova de que a poluição estava banida do rio que cruza Londres. Na realidade, a despoluição do Tâmisa era uma marca profunda na consciência dos ingleses desde 1861, quando o marido da rainha Vitória – o príncipe Alberto – morreu de febre tifóide devido à insalubridade do rio. A partir de 1960, no entanto, o Tâmisa começou a ser despoluído através de uma estruturada terapia de revitalização de suas águas.
Desde 1950, São Paulo também fazia planos para salvar o Tietê. Todos, infelizmente, fracassaram. Segundo especialistas, o “principal problema era conciliar os interesses da Light – para quem o rio serviu antes de mais nada à geração de energia elétrica – com medidas despoluidoras que constavam dos planos Greeley-Hansey, de 1953, e Hansey-Sawyer e Hibrace, de meados dos anos 60”.
Por mais de meio século, portanto, o rio Tietê espera por socorro. Governos entraram e saíram sem que se desse solução real para esse importante curso d’água que corta São Paulo quase por inteiro. “Mas os brasileiros de São Paulo podem ter esperanças”, afirmou o governador Luiz Antônio Fleury Filho em 31 de janeiro de 1992, ao anunciar o Programa de Despoluição do Rio Tietê. A meta é chegar a 1994 com 50% do rio despoluído. “Não estou pensando em política ou em meu governo ao começar a tirar do papel a despoluição do Tietê e iniciar essa obra que meus sucessores inaugurarão”, disse o governador(Jornal da Tarde,1/2/1992). “Tenho consciência de que em 94 a diminuição de 50% da sua poluição talvez não devolva transparência e limpidez às suas águas, nem me permita nadar em sua correnteza, mas o próximo governador poderá, se der continuidade às obras. Quem sabe ele até me convide”.
O desafio está aí. O investimento total previsto até o final de 1994 é de US$ 2,6 bilhões. A ampliação do sistema de coleta, afastamento e tratamento de esgotos domésticos exigirá US$ 2,1 bilhões, provenientes do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento (55%) e do governo do Estado (45%). Na primeira etapa do programa (1992/93) serão investidos US$ 900 milhões e na segunda fase, US$ 1,2 bilhão. Já para garantir o pré-tratamento dos efluentes industriais serão aplicados US$ 500 milhões, sendo 50% de responsabilidade da iniciativa privada e os outros 50% correspondentes à linha de financiamento Banespa/BNDES.
A coordenação do programa está a cargo do grupo executivo formado por representantes da Secretaria de Energia e Saneamento, Sabesp, Cetesb e DAEE, numa ação integrada para solução dos problemas de abastecimento e tratamento de água e esgotos.
Pense, agora, num Tietê do futuro. Se todos – governo e comunidade – quiserem é possível salvar o rio de São Paulo. Em depoimento ao Departamento de Patrimônio Histórico da Eletropaulo, vários artistas apontam para esta necessidade: “Nós podemos e devemos limpar o Tietê” (Paulo Vanzolini, compositor e zoólogo), “Limpar o rastro do mal progresso que ele ganha ao atravessar São Paulo é imperativo” (Domício Pinheiro, fotógrafo), “O rio tem o direito a sua volta ao seio da natureza com águas límpidas e acolhedoras para todos nós – seus companheiros na caminhada da vida” (Lélia Abramo, atriz), “Quando será o dia que a cidade de São Paulo irá acordar e se orgulhar de seus rios?” (Manabu Mabe, artista plástico).

O Importante Desconhecido
O rio Tietê é um símbolo de São Paulo. Geograficamente, divide o estado ao meio, cruzando-o de leste a oeste. Historicamente, foi um importante personagem desde os tempos do descobrimento – durante as bandeiras, as monções, a cafeicultura, a industrialização. Economicamente, é uma grande fonte de energia.
O Tietê deixou de ser um simples curso d’água para tornar-se um verdadeiro mar dentro do estado, com suas várias represas construídas para gerar eletricidade, incentivar a navegação, proporcionar lazer e restabelecer os ciclos biológicos da flora e fauna. Em seus quase 1.100 quilômetros, que se iniciam na Serra do Mar e terminam no rio Paraná, na divisa com o estado do Mato Grosso do Sul, cruza uma das regiões mais ricas do hemisfério sul e uma das maiores metrópoles do mundo atual.
Apesar disso, o Tietê é um quase desconhecido para os que convivem com ele. Mas um desconhecido muito especial: é quase uma negação. Ele nunca propôs uma navegação fácil aos aventureiros que nele se lançaram, sempre atormentou as cidades com inundações e empesteou suas várzeas com mosquitos e focos infecciosos. Com o tempo, assumiu um prestígio às avessas: adquiriu um nível de poluição alarmante e sua imagem ficou vinculada a algo de ruim e destrutivo.
Ironicamente, o rio que formou o tronco do sistema hidrográfico paulista nos primeiros anos da colonização e que teve papel fundamental no desenvolvimento econômico da capitania, da província e, finalmente, do estado, é um rio quase ignorado pela metrópole que ajudou a formar. Não fosse ser injuriado por suas enchentes torturantes e apresentar-se fortemente poluído e mal-cheiroso, talvez até andasse despercebido em seu leito de moribundo. Não precisaria ser assim, e há rios, principalmente europeus, que são um exemplo de integração na paisagem urbana.
Mas nem sempre foi assim. Pulando logo ao Século XX, no Tietê a população de São Paulo nadou e remou, e em suas margens desfrutou de lazer. Suas águas piscosas forneceram alimento e sua vegetação intensa escondeu várias espécies de fauna local. Também houve o reverso, é certo: sempre problemático, o Tietê foi durante muito tempo um obstáculo para a expansão do núcleo urbano, a cidade sempre esbarrando em suas margens e nas cheias que invadiam suas várzeas.
O Tietê, parte alegre da vida da cidade, foi esquecido. Não é nem mesmo lembrado como o antigo fornecedor da matéria-prima para a remodelação da antiga vila e sua transformação em metrópole moderna, processo com o qual também começou sua degeneração: ao mesmo tempo, o rio passou a receber os dejetos de milhões de habitantes, os mesmos que bebem a água servida por sua bacia hidrográfica.

Vilas Históricas
Ao escolher um longo caminho para chegar ao mar, o Tietê cruzou o estado de São Paulo de leste a oeste e formou vilarejos e pequenas cidades em todo seu trajeto. No começo da colonização, as primeiras vilas surgiram em torno da pequena São Paulo: Moji das Cruzes, Santana do Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Itu, Tietê, Porto Feliz. Mais tarde, com a expansão da agricultura, o Tietê influenciou diretamente a instalação de dezenas de outras cidades e vilas, todas com importância marcante no povoamento e na economia paulista.
Mais recentemente, com as estradas de ferro e as rodovias, essas vilas e cidades foram vagarosamente mudando de atividades. Algumas tiveram sucesso, outras nem tanto, passando a viver em boa parte de seu passado e de suas tradições. Todas, no entanto, guardam em suas ruas, igrejas, festas e costumes, a influência do Tietê, esse rio exclusivamente paulista.

O primeiro mapa
Pelos campos de Piratininga, o Tietê, com os rios Pinheiros, Tamanduateí e ribeirões afluentes, formava um trampolim para o sertão. Ele deixava de ser navegável na altura de Barueri, onde seu curso se tornava acidentado, para sê-lo novamente a partir de Itu. Dali para o oeste, até desaguar no Paraná, tinha trechos penosos, mas corria mais suavemente.
O rio serviu como via de penetração ao centro do país muito antes das bandeiras do Século XVII, mas sua navegação só se aperfeiçoou quando se tornou necessário estabelecer um sistema regular de comunicações com o interior. Navegar por ele era tarefa ingrata. Primeiro os bandeirantes, quando buscavam os índios, ouro ou pedras preciosas; depois, os integrantes das monções, que se dirigiam principalmente para Cuiabá; e, finalmente, os tropeiros, missionários, mascates, comerciantes e, eventualmente, soldados, que se utilizavam do curso de suas águas, todos, sem exceção, enfrentavam focos de doenças e uma vegetação densa nas margens, que os fez muitas vezes preterir o rio por trilhas de terra.
O leito do Tietê também foi utilizado como caminho para o Paraguai, e é de 1628, da expedição de D. Luiz de Céspedes Xeria, Governador do Paraguai, o mais antigo documento cartográfico do rio de que se tem notícia. Xeria fez uma viagem de 19 dias em uma embarcação que partiu do porto de Nossa Senhora da Atocha – provavelmente perto de Porto Feliz – e navegou pelo Tietê até o rio Paraná, e deste até a Cidade Real de Guairá. Já em seu país, elaborou uma reprodução grosseira do traçado do rio, onde descreve as dificuldades enfrentadas no percurso e indica corredeiras, saltos e penhascos, além de pontos onde foi necessária a travessia por terra. Esse documento tem valor inestimável ao assinalar, de forma bastante abrangente, a nomenclatura original dos lugares e dos acidentes geográficos da região, alguns mantidos até hoje.

Os primeiros habitantes

Fonte: tratamentodeagua.com.br

Usina de Salesópolis (desativada)

Função: Usina Geradora Hidrelétrica
Localização: Cachoeira dos Freires, Rio Tietê, município de Salesópolis (SP)
Início de operação: 1913
Capacidade instalada: 2.500 kVA
Reservatório e barragem: Área de 504.000m em elevação máxima das águas, com barragem em alvenaria de pedra argamassada medindo 77m de comprimento e 7m de altura
Tubulação: Dois dutos forçados de aço com 1m de diâmetro e 177m de comprimento
Casa das Máquinas: Edificação em alvenaria de tijolos e embasamento em pedra, planta retangular (20 x 22m) formando dois corpos: um maior, abrigando as unidades geradoras; um menor, que abriga escritório, oficina e serviço
Unidade geradora: Duas turbinas tipo Francis, fabricadas por Amme Giescke & Konegen A.G. (eixo horizontal – 1.500 HP cada), e dois geradores A.E.G. (50 Hz nominal – 1 250 kVA cada)
Vila residencial: Cinco residências em alvenaria de tijolos, construídas no início do século à década de 40
Estado atual: Unidades geradoras desativadas

Resumo Cronológico

1909 – 7 de setembro – Contrato entre a Câmara Municipal e M. Villela e Cia. para fornecimento de força e luz em Mogi das Cruzes.
1911 – Inauguração da barragem, canal adutor e adutora. Construção da casa nº 1.
1912 – Inauguração da unidade I.
- 21 de maio – Contrato entre a Câmara de Salesópolis e a Cia. Força e Luz Norte de São Paulo, sucessora de M. Villela e Cia. Contrato entre a Câmara de Santa Branca e a Companhia Força e Luz Norte de São Paulo.
- 24 de setembro – Contrato entre a Câmara de Caçapava e a Companhia Força e Luz de São Paulo.
1913 – 6 de outubro – Contrato entre a Câmara de Jambeiro e a Companhia Força e Luz Norte de São Paulo.
- Dezembro – A usina gera eletricidade pela primeira vez e transmite-a para Mogi das Cruzes.
1914 – Inauguração da unidade II, término da construção; fornecimento de energia para Caçapava, Jambeiro, santa Branca e Salesópolis.
1919 – Chuvas fortes elevam o nível da água da barragem que, vazando, carrega lama e entulho para dentro das máquinas.
1923 – Abril – Chuvas de grande intensidade e das mais fortes notadas na região. A água vazou pela barragem mas não causou dano maior.
1927 – Primeiro acidente: abre-se uma falha de mais ou menos 30 metros na alvenaria da barragem.
1927 / 1928 – A Ligth adquire o controle acionário da Companhia Força e Luz Norte de São Paulo, a usina de Salesópolis passa a integrar o sistema elétrico da Ligth.
1929 – Setembro – Rompimento quase total da barragem; a usina é desativada.
1934 / 1935 – Reinauguração da Usina.
1943 – Reforma geral; mudança da freqüência de geração de 50 para 60 Hz.
1954 – A Companhia Força e Luz Norte de São Paulo é incorporada pela Companhia de Eletricidade São Paulo e Rio 9ex- Companhia Ituana Força e Luz, também do grupo Ligth).
1960 – A Ligth passa a criar peixes no reservatório da usina de Salesópolis
1962 – Documentos internos do grupo Ligth discutem a viabilidade técnica e econômica de se manterem a pequenas usinas em funcionamento.
1967 – A Companhia de Eletricidade São Paulo e Rio é incorporada pela Ligth – Serviços de Eletricidade S.A.
1979 – Discute-se a desativação das pequenas usinas, inclusive a de Salesópolis.
1986 – Janeiro – A unidade I é desativada.
1988 – Janeiro – A unidade II é desativada.

Usina Edgard de Souza (Santana de Parnaíba)

Em 23 de setembro de 1901 é inaugurada pela Light a primeira Usina Hidrelétrica da América do Sul, situada na Cachoeira do Inferno, no Rio Tietê, em Santana de Parnaíba.
As obras foram efetuadas de acorda com os melhores processos da época. O maquinário para sua construção foi transportado de Nova Iorque para o Porto de Santos por navios, seguido pela Ferrovia Sorocabana até Barueri, e trazido até Santana de Parnaíba por carros de boi.
Sua construção empregou cerca de 1000 homens e durou 20 meses. A instalação de iluminação nas vias públicas da então Vila de Parnaíba ocorreu em 10 de abril de 1904, o nome da Usina é mudado para Usina Edgard de Souza, em homenagem ao primeiro brasileiro a ocupar um cargo de direção no Grupo Canadense Light.

Usina de Lavras – desativada – (Salto)

Uma história movida a água

Durante décadas, Lavras permaneceu abandonada, assim como sua história e tudo o que ela representou a cidade de Salto.
Lavras fornecia energia elétrica para a cidade de Itu e logo começou a fornecer energia também para Salto.
Sua degradação começou em 1929, quando foi inundada e ficou paralisada por sete anos.
Somente em 1956, devido a seus equipamentos obsoletos, Lavras foi posta a venda, sem nenhum comprador interessado a usina ficou entregue ao abandono total.
Foi em 1971 que a prefeitura de Salto adquiriu a propriedade, para quase 30 anos depois, através de um trabalho sério, transformar as ruínas da Usina de Lavras em um ponto turístico (ver turismo)

Usina de Barra Bonita (entre Barra Bonita e Igaraçu de Tietê)

Concluída – 1964
Geradores – 4 turbinas Kaplan com potência de 35 MW cada
Reservatório – 310 Km2.
Eclusa – comprimento útil: 142,20 m, largura útil: 11m e calado 2,50m – desnível máximo: 24m.

Usina Álvaro de Souza Lima (cidade de Bariri)

Concluída – 1969
Geradores – 3 turbinas Kaplan com potência de 48 MW cada
Reservatório – 63 Km2
Eclusa – comprimento útil: 137 m, largura útil: 11m e calado 2,50m – desnível máximo: 24 m.

Usina de Ibitinga (cidade de Ibitinga)

Concluída – 1969
Geradores – 3 turbinas Kaplan com potência de 44 MW cada
Reservatório – 114Km2
Eclusa – comprimento útil:137,55m, largura útil: 11m e calado 2,50m – desnível máximo: 23m.

Usina Mário Lopes Leão (cidade de Promissão)

Concluída – 1977
Geradores – 3 turbinas Kaplan com potência de 88 MW cada
Reservatório – 530 Km2
Eclusa – comprimento útil: 139,20m, largura útil: 11m e calado 2,50m – desnível máximo de 27m.

Usina de Nova Avanhandava (cidade de Buritama)

Concluída – 1985
Geradores – 3 turbinas Kaplan com potência de 115 MW cada
Reservatório – 210 km2
Eclusas – comprimento útil superior: 137,25m – comprimento útil inferior: 137m, largura útil de ambas:11m e calado de ambas 2,50m – desnível máximo superior: 18m – desnível máximo inferior: 16,60m

Usina Três Irmãos (cidade de Itapura)

Concluída -1999
Geradores – total de 8 turbinas Francis com potência de 161,5 MW cada – Apenas 5 em funcionamento
Eclusas – comprimento útil de ambas: 137m, largura útil de ambas: 11m e calado de 3,50m – desnível máximo superior: 24,30 – desnível máximo inferior: 25,50m.